Até hoje não ousei escrever sobre religião, partindo de um princípio do qual sou ferrenho defensor, o da liberdade de pensamento e, se toda cabeça tem liberdade para pensar o que ela imaginar, cabe ao coração decidir se deve atendê-la ou não. Viva a liberdade!

Liberdade que encontra restrições em inúmeras religiões, inclusive naquela que, acredito, abençoa maior parte da humanidade.

Abordo a questão porque estou lendo as últimas declarações de Bento XVI, atual ocupante do trono de Pedro, dizendo que reconhece a dolorosa situação dos católicos divorciados que não podem mais receber a comunhão da igreja após um novo casamento. “A Igreja Católica não permite divórcio e considera que os fiéis que chegam a ele e contraem novo matrimônio passam a viver em pecado. Se fracassam os esforços para anular o primeiro casamento e o casal continua a viver junto, a igreja encoraja esses membros da fé a se comprometerem a viver a sua relação como amigos, como irmão e irmã.” E mais: “Divorciados que voltam a se casar não podem manter relações sexuais com seu novo parceiro”.

Com o maior respeito, creio que Sua Santidade está pedindo algo demasiadamente complexo. Segundo me foi possível compreender, Bento XVI admite que duas pessoas de sexo diferente passem uma noite inteira na mesma cama e cada um com o rosto voltado para o lado oposto.

Trata-se de algo complicado em que o cidadão católico pode até se comprometer, jurar e tudo o mais, mas no delicado momento em que as peles se juntam e o coração pulsa com maior força é quase impossível acreditar que possa cumprir sua palavra.

Aliás, estou ao lado daqueles que entendem que a Igreja Católica precisa evoluir, pois em caso adverso é de se presumir que acabará lamentando a fuga de muitos dos seus fiéis, desgarrando para rebanhos menos rigorosos.

P.S. – Já rezei no Vaticano e recebi a bênção papal, o que não significa que me tenha tornado santo.

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 17/março/2007