Recordo que alguém, já há algum tempo, falou alhures, que o Brasil não é um país sério. E todos nós (eu, inclusive) nos indignamos com a ofensa. Ocorre que, vez por outra, algum fato ocorre que me traz aquela ofensa à memória, começando a provocar uma dúvida.

Ainda agora mais um e de não menor gravidade.

Sua Excelência, presidente Luiz Inácio, criou um Fundo de Investimento, através de um instrumento semiditatorial, com a aplicação de 5 bilhões de reais extraídos do patrimônio do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.

Do Oiapoque ao Chuí, todos os brasileiros sabem que o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço foi instituído para dar suporte ao trabalhador, só podendo ser sacado em caso de demissão, sem causa justa ou para a compra destinada à moradia.

Não é, nunca foi, um dinheiro do governo ou à sua disposição. É resultado do recolhimento mensal de 8% do salário do trabalhador (sim!) e depositado em conta individual, para render juro de 3% ao ano mais a chamada TR (Taxa Referencial), calculada em 5% ao ano.

Esse rendimento produziu um montante de 180 bilhões de reais. Ora, não demorou para o governo descobrir o “mapa da mina”, e foi lá e abocanhou, por ora, R$ 5 bilhões. Evidentemente, se o golpe der certo, logo logo o governo acabará deixando o fundo sem fundo.

Quando, respeitando-se a verdade, esse dinheiro só pode ser aplicado em compra de imóvel para os seus contribuintes para sua moradia. Idéia por demais justa.

E, notadamente deveria ser observada com o maior respeito se tivéssemos um governo sério. Mas, Sua Excelência, lembrando que alguém, algum dia, em algum lugar, disse que não somos um país sério, acabou acreditando e surrupiou do bolso dos trabalhadores… quanto? 5 (sim, cinco) bilhões (sim, bilhões), com todos os zeros que não cabem em minha modesta calculadora.

P.S. – Perdoem-me, mas bem-feito para o honesto trabalhador, que confiou no bom papo do Lula e reconduziu-o à Presidência. Não é o meu caso. Meu sexto sentido me advertiu e perdi meu voto. Mas minha consciência está me inocentando e dizendo que eu votei no melhor…

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 27/janeiro/2007