Depois de nada menos do que 240 anos no poder, a monarquia do Nepal acaba de sofrer um golpe fatal, quando o primeiro-ministro (leia devagar) Girija Prasad Koirala, que defendia o regime monárquico, num pronunciamento oficial declarou que estava na “hora de abrir espaço para uma república no país!”. E acrescentou que as ações e as palavras do rei Gyanendra nos últimos meses mudaram sua idéia a respeito de um rei cerimonial (?). “Dar espaço ao rei não significa deixá-lo criar instabilidade.” A reação do primeiro-ministro e muitos dos parlamentares do Nepal ocorreu precisamente na comemoração do Dia da Democracia, no último mês. No Nepal, o rei é visto como uma espécie de encarnação divina. Falando naquela ocasião, repreendeu os políticos que estariam tentando limitar sua influência no país. Em qualquer lugar do mundo, o poder é uma “teia de aranha”.

O primeiro-ministro afirmou que não será implantada imediatamente (não seria um golpe) mas que está prevista para entrar na pauta da próxima Assembléia Constituinte (junho). Mas… a imagem do rei já está sendo retirada da moeda do país e já se iniciou uma investigação sobre as suas contas bancárias (lógico que inclusive na Suíça!). As ações do primeiro-ministro (não estará de olho na cadeira do rei?) agradam os chamados maoístas que vêm acusando o regime monárquico de estar acobertado por detrás de um movimento de agitação étnica que vem causando distúrbios no sul do país. Nas palavras de uma líder do comitê central maoísta: “O rei está exaltando a violência que cresce assustadoramente no Nepal”.

Não deve provocar maior surpresa; mais de dois séculos no poder, já é de fazer inveja ao mais ambicioso ditador.

P.S. – Segundo me afirmam, um dos melhores modos de passar bem o tempo é jogando golfe. Mas, paradoxalmente, acabei de ler que “o golfe é um jogo que, desnecessariamente, prolonga a vida de alguns desnecessários cidadãos”. (Quem falou? Bob Hope, comediante americano de fama internacional, falecido em 2003.)

P.P.S. – Para quem não sabe, Nepal é um país encravado no Himalaia, entre a China e a Índia. Tem população estimada em mais de vinte milhões de habitantes e sua capital tem o nome emblemático de Katmandu. E não são poucos os que acreditam que lá o tempo passa bem mais devagar…

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 29/março/2007