Eu não me canso e espero não estar cansando os leitores ao, vez por outra, falar sobre o Rio de Janeiro, nossa eterna Cidade Maravilhosa.
E, notadamente, de uma velha e histórica rua da qual poucos falam. A Rua do Catete, tão cosmopolita quanto carioca, ainda com alguns sobradões da velha época que conseguiram resistir bravamente à sanha da especulação imobiliária.
É estranho, mas houve um espaço de tempo em que lá chegavam estudantes do interior do estado, e outros recantos nacionais, para aperfeiçoar seus conhecimentos em medicina, direito, odontologia e até filosofia, nas faculdades do Rio, geralmente com dinheiro curto, uma velha mala e grandes sonhos a serem alcançados através uma bela formação profissional. O conforto era secundário, acima dele estava a visão de um promissor futuro. Assim, servia modesto hotel, uma pensão, uma “república”, como eram chamados os abrigos destinados só a estudantes, de preferência na Rua do Catete, com seu grande comércio, mercearias, quitandas, padarias, farmácias, confeitarias, bancos e tudo o mais, como o Hotel dos Estrangeiros, à porta do qual foi assassinado Pinheiro Machado. No mesmo Catete do lendário Lamas, que no passado era um dos poucos onde as portas nunca fechavam e que abrigava artistas, bêbados e prostitutas, os estudantes pediam média com pão e manteiga e grã-finos tinham dinheiro para comer filé com fritas, que os garçons apelidaram de “um com elas”, o que intrigava um jovem jornalista que mais tarde o Brasil todo leu com o nome de Rubem Braga, que ali passou um tempo antes de residir numa pensão ao lado de Graciliano Ramos e Lúcio Rangel.
Começando no Largo da Glória, atravessando o Largo do Machado e terminando na Praça José de Alencar, com dois cinemas no caminho, o São Luiz, o maior de todos, e o Asteca, de todos o mais feio, o Teatro do Rio, a Igreja de Santo Antônio, a Faculdade de Direito, de onde saíram ilustres personalidades, e o antigo Palácio das Águias, onde hoje está o Museu Histórico da República; era rua por onde trafegavam diariamente luxuosos carros com estridentes sirenas anunciando presidentes da República; por onde passou Washington Luis depois de reconsiderar sua idéia de só sair morto do Palácio e de onde morto saiu o presidente Getúlio Vargas.
P.S. – Trata-se ou não de uma rua repleta de histórias?
Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 23/fevereiro/2007
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