Trata-se de um conflito histórico: o direito da imprensa de livremente informar a sociedade e o direito do governo de ter “segredos militares”. Vem desde os primórdios e embora por vezes definhando, ainda está muito distante do final.

Ainda agora assistimos a uma reprise desse antigo filme. Menos de 24h após autorizar que os quinze marinheiros capturados pelo Irã vendessem sua história para jornais, revistas e televisão, o ministro da Defesa Des Browne retrocedeu e proibiu que militares recebessem dinheiro, notadamente de jornais e emissoras de televisão. Tão logo havia feito seu pronunciamento, o ministro passou a receber críticas de parentes das vítimas da guerra no Iraque, de diplomatas e até de militares. Foi o quanto bastou, mas não impediu que dois marinheiros já houvessem embolsado “algum”.

A primeira a lucrar foi Faye Turney, a única mulher do grupo, que falou ao tablóide The Sun e à rede ITV, relatando que fora separada do grupo, permanecendo isolada durante cinco dias em uma cela de quatro metros quadrados, obrigada a ficar apenas de calcinha e submetida a interrogatórios, durante o qual lhe perguntavam várias vezes se ela ainda tinha vontade de rever sua filha de três anos… Técnica perversa!

No dia seguinte ouviu batidas de martelo e de serra cortando madeira, quando entrou em sua cela uma mulher, que passou a tirar suas medidas e perguntando se sabia para quem é que estavam preparando um caixão ao lado. O marinheiro mais jovem que estava ao seu lado declarou ao Daily Mirror que chegou a chorar como um bebê, até porque um dos guardas batia em sua cabeça e o obrigava a assistir vídeos horríveis de execuções no Iraque. Esse guarda foi apelidado de mr. Bean, dada sua semelhança com o ator Rowan Atkinson.

Ninguém declarou o preço das entrevistas, mas os jornais calcularam em aproximadamente US$ 200 mil. Nada mau.

P.S. – É triste saber que a Inglaterra, um dos berços da liberdade de expressão, tenha recorrido à censura. Mas para qualquer governo trata-se de uma tarefa ingrata, difícil de cumprir e que acaba tendo repercussão maior do que o que fora censurado!

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 20/abril/2007