Todos acreditam que temos uma só alma. Mas toda vez que descanso a escutar músicas de minha preferência (e estou certo de que tenho bom gosto) sinto-me como se estivesse sentindo uma segunda alma. É sublime ser penetrado por melodias que nos enlevam, nos dominam e até nos fazem sonhar. E, não raramente, permaneci por vários momentos a meditar procurando uma resposta enigmática: como foi possível que, com tão poucas notas musicais, compositores notadamente do passado, quando os recursos, os conhecimentos e o acesso à cultura eram complexos e caros, tivessem conseguido construir uma gama musical para servir a eternidade?

Dó, ré, mi… não parece incrível? Legato, Stacatto, pizicato, movimento, opus, andante, cantabile, romanza, cavaleria, valsa, mazurka, minueto, concerto, sinfonia, ópera e sei lá mais o quê, constituem essa fantasia deslumbrante que encanta o indivíduo, a família e edifica, realmente ou não, em nossa vida uma segunda alma, não tão importante quanto a legítima, mas suave, reconfortante e extremamente deliciosa.

Bem sei e compreendo que a maioria já elegeu Mozart, Beethoven, Schubert e outros de sua preferência como os melhores compositores. Como gosto não se discute, não entro no mérito.

Mas sinto-me no direito de ficar em companhia daqueles que mais alegram minh’alma. Peter Ilich Tchaikovsky, com o incomparável Capricho italiano; George Bizet, com a imortal Carmem; Maurice Ravel, com o Bolero, que não tem ritmo de bolero mas que invade nossa alma; mais uma vez Tchaikovsky com a beleza do Concerto n.º 1; Mascagni, com a Cavaleria rusticana; e, para não deixar os americanos de fora, George Gershwin com Rapsody in blue.

P.S. – Peço escusas por não citar nossa música que tanto ouço e admiro desde Ernesto Nazareth até Villa Lobos.

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 24/abril/2007