Acabo de ler delicioso volume da coleção Clássicos portvgveses, escrito assim com “v” em lugar do “u”, sob o título de As segundas três musas, ensaio crítico, seleção e notas de Antônio Correia de A. e Oliveira, professor do Liceu de S. João III, editado pela Livraria Clássica Editora, de Lisboa, em 1945.
Para enlevo do leitor, alguns trechos selecionados ao acaso. Conceito de poesia: “Os dois pólos em que se funda a poesia são o amor e a ociosidade, não sendo os versos lição própria de sisudos, mas de mancebos, damas e ociosos; verdadeiramente ela é uma arte florida que pede sujeitos floridos em anos florescentes. A poesia é essencialmente beleza e o seu fim específico, como já haviam notado não só Platão, mas também Aristóteles e repetira Horácio, é o deleite”. Para Aristóteles a poesia é uma atividade (que está escrito “actividade”) racional que tem duas causas naturais – a tendência dos homens para imitar e o prazer que lhes dão as imitações (em seu livro Poética).
Na definição dos preceptistas (de preceptivo, estudo da forma ou natureza do preceito) a palavra poesia tem o sentido de arte, da atividade da inteligência operativa, “recta ratio factibilium”, de ato poético na sua face dialética descendente ou fase poemática.
Se adotarmos a expressão horaciana (Ut picture poesis) a poesia é uma pintura que fala. Na verdade, os franceses proclamam: “La poesie est comme une peinture”. Para Marino, talvez a figura mais expoente da fase lírica italiana de seiscentos, em que tudo dependia do adorno, “Musica e poesia son due sorele ristroratrici de l’afflite gente”.
Ortega y Gasset escreveu: “Poesia es iludir el nombre cotidiano de las cosas!”.
No dizer de Marcel de Corte, em Ontogie de la poesie (publicado em 1938), “o domínio da arte é o domínio do ‘facere’ e do deleite artístico. Só a obra, o opus, se revela capaz de existir e representar ao mesmo tempo”.
P.S. – A poesia não é uma técnica artificiosa e fútil e seu objetivo não é o prazer e a distração de ociosos, como já se disse, a poesia é parte da filosofia e não menos ilustre, é ciência alta que não há que estranhar quando agrade a espíritos divinos!
Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 29/maio/2007
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