Já foram muitos anos, mas a missão foi inesquecível: corrigir as provas de redação ao tempo em que foram introduzidas no exame vestibular da gloriosa Universidade Federal do Paraná. Creio ter sido a tarefa mais cansativa que até hoje cruzou o meu caminho. Escondidos num local que só a cúpula da Universidade, iniciávamos às 8h para só encerrar às 18, com rápido almoço no próprio local, enquanto gente da imprensa, rádio e televisão fazia plantão junto à Reitoria, assistidos por familiares dos vestibulandos.
Recordo admirar o particular amigo e notável mestre Mansur Guérios, caminhando entre as inúmeras prateleiras de livros e indaguei-lhe o motivo. Resposta: “Meu caro, todos os dias, após o almoço, eu ando mil passos”.
Trabalho insano. Corrigíamos duzentas provas por dia, cada equipe de três professores. O depois reitor e renomado mestre Carlos Alberto Faraco figurava na minha equipe, o que me assegurava maior tranqüilidade. Só quem passou por essa experiência sabe o que significa.
Para tentar amenizar o tédio comecei a anotar os erros mais grosseiros e ao final tinha em mãos uma coleção de “pérolas”. Pensei até em fazer um livro (seguramente um best-seller), mas fui dissuadido pelo caro professor Wouk, então chefe do grupo, sob o argumento que a divulgação não ficaria bem para a Universidade.
Não convencido da solução, acatei-a e só a desrespeitei em palestra no Centro de Letras do Paraná, onde citei alguns exemplos para mostrar o nível com que os estudantes chegam à Universidade.
A impressão atual é que temos melhorado, mas ainda não ao nível necessário. Anos depois tomei conhecimento de idêntico problema na Universidade de Brasília, onde os candidatos foram chamados a escrever sobre a inflação e escreveram frases como essas: “Este bicho papão adora cheiro econômico principalmente se for cheiro verde”. “Pode custar mais de um salário mínimo e desregular todo o orçamento mensal, a ida ao hotel ou motel… o desempenho dos solteiros é mais prejudicado por não possuírem local fixo”.
A ortografia continua desafiando o raciocínio dos jovens. Anotei alguns vocábulos: “enriquicimento”, “escensivo”, “grandes apricações”, “defcits”, “def-cts” e… “poder acsitivo”.
Retrato desanimador quando se sabe que escrever corretamente é fundamental para o exercício de qualquer profissão e notadamente por se tratar de nossa juventude privilegiada que chega ao ensino superior, ou seja, aquela de maior poder “acsitivo”.
P.S.- “Freqüente, tenho longas conversas comigo mesmo. E sou tão inteligente que algumas vezes não entendo uma única palavra do que estou dizendo”, de Oscar Wilde, ou para ser correto Oscar Fingall O’Flahertie Wills, sim esse o nome do admirado escritor inglês nascido em Dublin em 1856 e que morreu em Paris em 1900. Um pouco mais Wilde: escreveu poemas, contos e escandalizou a França (?) com o “imoral” romance “O retrato de Dorian Gray” em 1891 e, levando vida de luxo e exuberante, ao lado de homossexuais, entre eles o jovem lord Alfred Douglas, cujo pai o processou, pelo que foi condenado a dois anos de prisão com trabalho forçados. E na prisão de Reading escreveu belas obras, entre elas “A balada do cárcere”. Deixou a prisão arruinado, doente e, perambulando sem rumo, morreu nas ruas de Paris.
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