A pergunta pode parecer absurda mas tem razão de ser. Evidentemente, não quanto a mim ou mesmo ao paciente leitor, mas é pertinente para nossos ilustres representantes na ilha da fantasia. Para aqueles que ainda não sabem onde está localizada essa aprazível ilha da fantasia, ela fica bem no centro do País, local para onde o presidente JK transferiu a capital que ficava na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. E, logicamente, ninguém queria ser transferido de uma cidade que é tida como das mais agradáveis do globo, para o “sertão” de Brasília. Vai daí que o governo instituiu maiores salários, ofereceu apartamentos, transporte e outras mordomias para atrair funcionários, já que não era fácil se adaptar ao árido Brasil Central, onde a grande atração era o chamado “Catetinho”. Eu estive lá, entre jornalistas que foram convidados para descrever o que seria a nossa capital da República. E… bem, na ocasião eu descrevi as impressões colhidas, certamente mais voltadas para o futuro, já que a realidade presente não era por demais animadora. Mas, como sempre acontece, o tempo, o senhor da razão, mostrou que Juscelino estava fazendo o que era certo e que somente um presidente ousado e de ampla visão estaria propenso a executar; ele próprio sofrendo as conseqüências de ser presidente na solidão do planalto central. Mas, como seria de esperar, aqueles que começaram com amplas regalias e benefícios, por nada concordam em perdê-los. Como qualquer de nós, não?
E o prazer de ser bem remunerado pegou. Tanto que a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara aprovou, em menos de cinco minutos, um reajuste de 26,5% para o presidente da República, vice, 34 ministros de Estado (para que tanto ministério, gente?), 594 congressistas (para que tantos parlamentares?) – olvidam aquele velho ditado: quer decidir rápido um problema, chame um assessor; quer “enrolar”, nomeie uma comissão!
P.S. – Para conhecimento público: o presidente passa de R$ 8.900 para R$ 11.200; o vice, de R$ 8.400 para R$ 10.600; os ministros, de R$ 8.400 para R$ 10.600; e os ilustres congressistas, que são mais dedicados e têm “maiores responsabilidades”, de R$ 12.800 para R$ 16.200. Com o “pequeno” mas caríssimo detalhe. Mais R$ 4.268 de custo de telefone; R$ 3 mil de auxílio-moradia; R$ 12 mil (média) de passagens aéreas e mais R$ 500 para material gráfico. Esqueceram de uma verba para o barbeiro e outra para o engraxate. Ah, havia esquecido que esse serviço eles recebem gratuitamente, ou seja, nós pagamos. Não resisto à tentação de uma pergunta: começo a pensar em disputar a próxima eleição. Alguém me presentearia com seu voto?
P.S. 2 – Artigo primeiro de qualquer Constituição: é vedado legislar em causa própria!
Publicada no jornal “O Estado do Paraná”, 5/maio/2007
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