Falei em artigo anterior nos pecados capitais. E acreditava então que não os tinha. Penitencio-me neste momento. Acabo de ler um bom livro, aliás a leitura é minha segunda paixão. E quanto mais leio mais gosto; que me perdoe o rádio, no qual trabalhei por várias décadas e, aliás, com prazer e onde muito aprendi. A leitura, contudo nos alegra a alma, creio que essa virtude é da leitura e da música. Ao menos para o meu coração.
Bem, e o meu pecado? Grave, estou certo: a inveja. Sim, terminei de ler “As memórias de Roger Vadim – Bardot, Deneuve e Fonda”.

E não é para ter inveja? Esse francês exibido casou com as três: Brigitte Bardot, Catherine Deneuve e Jane Fonda. Uma covardia. O que será que ele tem que eu não tenho ou nós não temos? Dizem que BB era a mais sensual, Catherine mais artista mas para mim a mais importante ela… Jane… Fonda, ou Fadah, ou Féder. Perdoe-me se falo na primeira pessoa, o que sempre evitei. Mas recordo que certa noite fui surpreendido por um convite de meu saudoso pai, Salomão Elias Féder. Vou esclarecer já: Meu pai e seu primo deixaram a Europa e viajaram para a América, à época uma aventura de longos dias em oceano desconhecido com navio sem a tecnologia atual, na realidade uma aventura ou salto no escuro, pois do Brasil só conheciam o nome, nunca o lugar, a distância, o idioma, a moeda, os costumes, o hábito alimentar (a propósito, descobri há poucos anos que se come melhor comida árabe aqui que nos países de origem e, também, melhor a nossa pizza do que a legítima napolitana; ou será que é o nosso hábito ou gosto?). Sim, nome do primo de meu pai: Henry Fadah (prata em árabe), chegou nos EUA e anotaram Henry Fonda. No Brasil, talvez por soar como nome feio o cartório escreveu: Féder. E quando o cartório registra, ponto final.

Perdi-me novamente. Dizia que meu pai pela vez primeira foi ao cinema comigo para ver um filme em que trabalhava Henry Fonda e, então, tomei conhecimento do que agora torno público. Sem vaidade, com saudade.

No livro Vadim escreve: “O que tem sido publicado a respeito de Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Jane Fonda e Roger Vadim nem sempre é incorreto, mas a luz dos refletores costuma distorcer a verdade. (Escreve bem o danado!) Pior ainda é o hábito insaciável de nossa sociedade, ávida por informações, de rotular e classificar quem quer que seja. Não me agrada a ideia de ser enterrado com uma máscara mortuária que não reproduza meu próprio rosto. No entanto, há outra razão para este livro: a necessidade de falar das alegrias, dos prazeres e dos tumultos que conheci ao lado de três mulheres notáveis. Não pude resistir a tentação de abrir o cofre do passado em que tantos tesouros íntimos foram armazenados. Não queria chegar ao fim da vida como um avarento colecionador dessas maravilhosas lembranças e imagens, imagens de contos de fadas que um dia desaparecerão comigo num mundo em que tudo é apagado. Brigitte, Catherine e Jane, três modernas princesas em contos de fadas e também de crueldade, mas com final feliz. Conheci essas estrelas antes que chegassem às telas”.

A deusa do amor jamais fora vista emergindo do mar até que Boticelli a tivesse pintado a flutuar numa concha de pérolas. E foi esse espetáculo que dois mil fuzileiros navais viram a 12 de maio de 1958, onze e meia da manhã do porta-aviões Enterprise na baia de Cannes. A descrição é sensual, preciso resumi-la: primeiro eles viram as longas tranças, flutuando na superfície do mar; depois o rosto do qual escorriam gotas resplandecentes de água como diamantes, a boca inocente e sensual, os olhos perfeitamente ovalados, o nariz delicado, as faces redondas como de uma criança, o lindo sorriso e a felicidade. (Hum!…) Duas mãos aristocráticas se agarraram ao barco Chris-Craft e a aparição ergueu-se: um pescoço delicado e uma cintura tão fina que um homem envolveria com as mãos, um traseiro tão redondo que causaria inveja a Adônis e Afrodite, quadris curvos, coxas longas e firmes, tornozelos graciosos e pés arqueados de bailarina. O biquíni minúsculo, mais uma sombra do que uma roupa, nada escondia do seu corpo glorioso e sensual. Os marinheiros não resistiram: gritos, aplausos e assobios que foram ouvidos até no Palais du Festival, na Croisette. Balbúrdia. Do alto Brigitte bradou: Cuidado para não naufragar o porta-aviões. Um oficial, contrariando o regulamento, convidou-a a subir a bordo. Aceitou. O oficial disse que preferiu violar o regulamento para evitar um motim. BB posou para dezenas de fotógrafos. Saiu para vestir seu “blue jeans”, meia hora para se livrar dos fotógrafos, mais meia para chegar ao hotel e meia para atravessar o saguão. Ao descer do elevador, novo batalhão de fotógrafos. Estrela também sofre.

O Festival de Cannes estava no auge, tempo de loucura e diversão. As estrelas ignoravam que haviam vindo à terra para como o Messias conduzir a humanidade. BB havia feito só dois filmes e não fora convidada pelo Festival. Apesar disso, na sua chegada, foi surpreendida por multidão de fotógrafos. Para ser estrela tem que nascer como estrela. É a história fantástica e quase incrível de Brigitte Bardot que o mundo aprendeu a conhecer, aplaudir e admirar como ícone das telas.

P.S. – Nada mais inverossímil do que o real. (Camilo Castelo Branco – Escritor português falecido em 1890, aos 65 anos).