É necessário, desde logo, identificar o autor. Chama-se Jacques Attali, foi o principal assessor do ex-presidente François Miterrand e presidente do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento.

E foi esse cidadão quem escreveu o artigo originalmente para a Global Viewpoint e O Estado de São Paulo na qual sustenta que “todo mundo tem inveja do modelo francês”. E, mais, apresenta as provas…

“Sei que meu país é encarado como a última reserva dos burocratas do mundo, uma espécie de Titanic adormecido. Muitos acham que a negação francesa da flexibilidade trabalhista é uma recusa de encarar a realidade. A verdade é diferente. A verdade é que o resto do mundo tem inveja dos franceses. A França atrai mais turistas do que qualquer outro país do mundo e tem altos níveis de investimentos estrangeiros. Quando ouço os britânicos criticando as supostas fraquezas da França, me pergunto por que tão poucos franceses compram casas no interior da Grã-Bretanha, enquanto tantos britânicos o fazem na França. A razão é a mesma: a qualidade de vida na França é uma das mais altas do mundo, se não a melhor. Disso não há dúvida. E a França não vai decair. A França é a número um, dois ou três em muitos setores. Pergunto-me por quanto tempo a caricatura de uma França preguiçosa sobreviverá? Existem, claro, alguns motivos para criticar a França. Um deles é a natureza de sua elite política: velha, instalada há mais de trinta anos no poder, fascinada pelo passado, alheia às realidades do mundo. Os membros dessa elite são tão patéticos quanto os jovens franceses são dinâmicos.

Uma revolução é inevitável? Quando? Como? Rápida ou profundamente? Uma nova elite surgirá, afinada com o dinamismo do francês. Mas antes que os estrangeiros tenham impressão errada, está claro que a França e a esquerda francesa não se renderão a nenhum modelo.

Sim, a França é uma exceção, todo o país o é graças a sua história, geografia e cultura. Não há razão para copiar doutrinas externas. A França foi construída em torno de um estado central forte, uma língua unificada e grandiosos projetos. Por isso é o que é: nação forte com alto padrão de vida e uma expectativa de vida que aumenta de três meses a cada ano e uma infra-estrutura excelente. Se a França é uma exceção feliz, está feliz por sê-la. Não pode e não deve destruir suas qualidades só para agradar aos concorrentes.

A defesa da língua como cimento da nação é um dos papéis fundamentais do Estado, na hora em que outras nações fracassam nessa luta. A França tem problemas, desemprego, alto custo da habitação, integração inadequada das minorias e dívida pública, por exemplo. Mas não há modelo fora da França para resolver esses problemas.

Precisamos reorganizar as instituições de governança global. Esses problemas os partidos social-democratas do mundo devem trabalhar juntos, em vez de exportar receita para ambientes inadequados para elas.

P.S. – Alguém mais tem inveja da França? E nós brasileiros temos inveja de quem?…

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 2/junho/2007