Na minha juventude, sempre orientado notadamente por minha mãe, Margarida Chemim, já que meu pai estava constantemente viajando, ela, extremamente católica como a maioria de origem italiana, mandou-me frequentar aulas de catecismo, num prédio próximo a Igreja, que era o ponto central da cidade. E ali, do pouco que minha memória gravou é que a inveja é um pecado capital. Jovem e idealista eu estranhei, sentir inveja de quem, por quê? Tudo que preciso meu pai me dá, nem preciso trabalhar. Mal podia imaginar que essa inveja é sentimento que pode nos acompanhar por qualquer tempo e, talvez até o fim da vida, pois a insatisfação humana está comprovada através dos tempos e ainda presente. O desejo de querer é inato e quase insaciável. O que me faz lembrar uma música, creio que argentina que várias vezes ouvi cantar: “Todos queremos mas…”.
Esse “nariz de folha” (era assim que antigamente nos jornais a gente chamava a abertura de qualquer escrito) é para tentar justificar aqueles momentos em que cometi o pecado da inveja.

Eu tive um apartamento para férias no Rio de Janeiro. Enquanto meus amigos e familiares compravam em nosso litoral ou no catarinense eu tive a ousadia de adquirir na Cidade Maravilhosa. Por quê? Porque na primeira vez que cheguei ao Rio, já do alto do avião, fiquei deslumbrado com a beleza da cidade e ao melhor conhecê-la fui sendo tomado de paixão. Por seu desenho que a natureza não deixou cópia, por suas praias, pelos seus passeios, locais (Corcovado, Pão de Açúcar, Niterói, Barra da Tijuca) e os pouco distantes Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Cabo Frio, Búzios e tantos outros. Interessante que naquele tempo se dizia que o Rio era bela cidade, mas onde se comia mal, pois os melhores restaurantes do Brasil estavam (e ainda estão) em São Paulo. Problema que o tempo resolveu porquanto atualmente o Rio conta com excelentes lugares para se passar bem. Da Colombo ao Antiquarius, do Shirley ao popular Silva, não há o que reclamar. Certo que o Rio tem suas peculiaridades. O sotaque carioca e o seu modo amigável de prestar informações, quase acompanhando a gente e o seu estilo sintético de falar. Não sei de onde minha memória arquivou essa cena. O carioca retornando de viagem encontra o parente que o esperava e começa a perguntar: E o Alexandre? Casou. E o Edmundo? Conseguiu emprego. E o Henrique? Entrou na Universidade. E o Gustavo? Sifu…

Voi lá, e o meu pecado capital? Esse ocorreu no Rio, onde fiquei conhecendo e me tornando amigo de grande personalidade, Afonso Arinos de Melo Franco. Convidado para visitá-lo na sua residência em Botafogo, enquanto conversávamos a espera de um delicioso chá que sua esposa preparava eu fixei o olhar na sua imensa e bem organizada biblioteca. E… senti inveja. Eu tenho uma biblioteca modesta e bem selecionada, mas a de Arinos é diferenciada, notadamente pelas obras raras que ali se encontram. Foi um sentimento de inveja, reconheço, mas sentimento puro, de admiração e até de veneração. Afonso Arinos um brasileiro notável e, contudo, igual a nós.

Outro brasileiro exemplar e, lamentavelmente nem sempre bem reconhecido: Miguel Seabra Fagundes. Tão culto quanto tímido, tão sábio quanto introvertido. Magistrado, político e jurista nascido em Natal, no ano de 1910, bacharel em Direito pela tradicional Faculdade do Recife. Foi juiz e procurador do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, desembargador e interventor federal (1945-1946) naquele Estado. No governo Dutra foi Consultor Geral da República e no governo Café Filho foi ministro da Justiça. Tem uma enorme série de obras publicadas, valendo citar, por escolha própria Controle dos Atos Administrativos pelo Poder Judiciário, Da Desapropriação no Direito Brasileiro, Dos Direitos Públicos Subjetivos do Indivíduo, Do Conceito de Mérito de Segurança, Dos Recursos Ordinários em Matéria Civil, As Forças Armadas na Constituição e, para não muito alongar, Da Organização e do Funcionamento do Poder Judiciário. Esse cidadão, com esse currículo, aqui incompleto mas de fazer inveja a não poucos, convidou-me para jantar no restaurante Marisqueira e, em retribuição, convidei-o para jantar em nosso apartamento na Barão da Torre, 47, Ipanema, onde numa noite agradável e inesquecível, lembro bem que ele se surpreendeu com algo e perguntou a minha Rose Marie. “Minha senhora, que delícia. O que é isso?” “É kiwi professor”, respondeu Rose. “Kiwi? Nunca havia comido, posso me servir mais?” Gostou mas quem mais gostou fui eu do papo que invadiu a noite, colhendo um pouco de sua sabedoria. Tempos mais tarde ele veio participar de um Congresso em Curitiba e eu tive o prazer de recebê-lo e tivemos dias felizes e de alegre convivência.