Já há algum tempo vendi meu carro, um Camaro, automático, branco, capota negra, conversível, o mais charmoso da cidade; vendi para não brigar com a família preocupada em que depois dos setenta anos ninguém tem mais reflexo (foi o vocábulo de que se serviram) para conduzir um veículo numa cidade como Curitiba, onde muita gente ainda não tem casa própria mas quase todos têm automóvel, para não falar das motocicletas, que nos ultrapassam sempre… vrummm…
Com efeito, nosso trânsito perde para duas ou três capitais, se tanto. Cidade rica, do sul maravilha, como me diziam amigos do norte e do nordeste quando me convidavam para fazer palestras mais por bondade e amizade do que por méritos, inquestionavelmente.

Mas, andar de táxi tem a vantagem de ser bem informado pelos taxistas, na realidade, uma das classes trabalhadoras de maior importância para qualquer metrópole. Qualquer visitante, a passeio ou a negócio, tem primeiro contato com o taxista, que pode lhe oferecer uma imagem positiva ou negativa da cidade, tanto pela sua apresentação como pelo seu diálogo.

Esse preâmbulo, pouco longo, é para denunciar que o Detran está se transformando na Caixa Econômica do governo, que faz desse Departamento sua grande (se não a maior, já que não disponho de números oficiais) fonte de renda.

O fato que me serviu de exemplo foi este: o taxista cujo nome não vou divulgar, caso contrário terei que voltar ao meu tempo de advogado para defendê-lo, foi apanhar uma passageira, idosa e enferma, a quem já conhecia e, como tal, para facilitar, colocou duas rodas sobre a calçada e foi multado. Curioso: não tenho visto nenhum guarda orientando o trânsito, mas para multar de repente eles aparecem. Será que eles ganham comissão? Não sou contra, só para saber.

P.S.- A invenção do automóvel particular é um dos grandes desastres que atingiram o gênero humano. Ou no original: “The invention of the private automobile is one of the great disasters to have beffalen the human race”. (E. J. Mishan, em seu livro “As custas do crescimento econômico”, escrito em 1967, quando os carros não eram tantos)