Quero esclarecer de imediato que me considero ateu. Ou, como diz minha querida Rose Marie, ateu graças a Deus. Diria, contudo, que não chego ao extremo de concordar com Marx quando ele proclama que a religião é ópio dos pobres, mas como estudioso e acompanhando a história, estou convencido de que a religião que se diz doutrina de fé, paz e amor, ao longo do tempo tem se desviado dessa trilogia.

E, lastimavelmente, a religião cujo escopo é fazer o bem, por vezes chega ao oposto, divergência, conflito, separação e até consequências fatais. E é fácil saber por que. Porque são inúmeras as religiões e amiúde elas se defrontam e o passado nos revela que as disputas religiosas são as mais encarniçadas possíveis, lutas daquelas em que o combatente entra para matar ou morrer. Evidentemente ocorre então o que há de mais lamentável, condenável, injustificável e todos os demais adjetivos cabíveis. A religião é sentimento interno, aquele que penetra no cérebro e no coração, neste mais profundamente, exercendo domínio quase pleno. Difícil, conseguintemente de ser controlado, contido ou extirpado. Se voltarmos nosso pensamento para um passado longínquo chegando à Idade Média vamos testemunhar expedições de cristãos do ocidente a caminho da Terra Santa com o objetivo de dali expulsar os muçulmanos, fato distante mas não muito pois ocorrido no ano de 1095, a primeira delas, com a intenção de recuperar Jerusalém que havia sido tomada pelos turcos no ano 1076. Não vamos nos deter nesse tema que já ocupou páginas de incontáveis obras. Vamos apenas lembrar que a religião, o que é triste, não cuida apenas de alimentar a alma e apaziguar corações. Não raro ela ingressa na política. Hoje até são poucos os clérigos que se aventuram a posições na administração pública. Mas o passado tem exemplos a sobrar de Papas que pretendiam exercer poder absoluto além do Vaticano, com indesejáveis consequências.

Os tempos modernos, para o bem geral, têm assistido a política e a religião cuidando de seus interesses separada e pacificamente como, aliás, prescreve o artigo primeiro do catecismo democrático.

P.S. – Bossuet escreveu desacertadamente: Deus detém em suas mãos o coração dos reis. Isto não é verdade por duas razões: Deus não tem mãos e os reis não têm coração. (William Shakespeare)