O apartamento que mantive no Rio de Janeiro (Rua Barão da Torre, 47, 4º andar, Ipanema,) proporcionou-me alegres momentos que ainda guardo com saudade, não apenas por passar belas temporadas na mais bela cidade do mundo como pelos bons espetáculos que aplaudi. Entre eles notadamente um Eugene Evtuchenko. Noite inesquecível, foi apresentado por Dina Sfat no Teatro Copacabana inteiramente lotado. E, algo raro, o espetáculo começou precisamente às 21 horas. Palco sem brilhos, apenas uma pequena mesa onde estavam os papéis com os poemas que Dina leria e duas cadeiras; iluminação simples, só a sombra de Evtuchenko refletida ao fundo como que dramatizando os gestos seguros de sua interpretação.
Segundo a imprensa informou após o espetáculo, houve apenas um ensaio dirigido pelo próprio poeta. De início Dina Sfat recitou o poema “Dorme Amor”, em seguida Evtuchenko recitou-o em russo, com enorme efeito sobre a plateia, mesmo porque ele, com grande dificuldade, conseguiu explicar o poema com um sotaque espanhol ligeiramente italianado. Durante o espetáculo foram intercalados o português e o russo. Dina leu com voz pausada e forte o poema “Babiar” que fala do extermínio de 70 mil judeus em uma cidade russa durante a Segunda Guerra Mundial, e terminou sua fala em lágrimas.De sua parte Evtuchenko foi dramático, mas às vezes também irônico.Evidentemente o público pouco ou nada entendia, mas aplaudia com entusiasmo. Espetáculo de hora e meia sem intervalo exibindo as obras, além de Babiar, Cidade sim, cidade não, Feira, Monólogo de uma atriz, As fronteiras e Chave do comandante. Em As fronteiras Evtuchenko fala do seu sonho de ter nascido em todos os países (linda imagem), ou seja, ser ele mil pessoas e participar de todas as culturas.
Curioso que o poeta comentou que gostaria de estar sentado em uma mesa com operários da Ucrânia… desde que não fosse tomando coca-cola. Em contraposição, durante o espetáculo Evtuchenko fumou três cigarros de uma carteira que ficara sobre a mesa. Marca do cigarro? Malboro. E, ao encerrar, o poeta leu em português quatro versos. Foi a consagração, com o público em aplauso de pé, meritoriamente ao primeiro poeta russo a se apresentar no Brasil.
P.S.– A arte não tem nacionalidade e, assim, contribui para mais unir os povos.
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