Tenho escrito muito sobre a Alemanha por ser o país europeu que tanto admiro e o que mais visitei. Hoje, contudo, vamos de Alemanha exclusivamente berlinense. Berlim, muitos não sabem, é uma das capitais europeias de mais intenso movimento noturno. Acredito que se não superar Paris, está ali bem juntinho.
Seria enfadonho enumerar espetáculos da noite em Berlim e minha memória esqueceu de muitos. Graças, contudo, a algumas lembranças de viagem encontradas numa remexida em meus desorganizados papéis e livros – minha querida Rose Marie vive insistindo para que contratemos uma bibliotecária porque cada vez que demoro buscando um livro (o que acontece sempre) ela bota a boca no trombone – posso rememorar alguns espetáculos.

Ah, Berlim. Berliner Philharmoniker – Sonderkonzert SK 10.

Complicado o título? De fato, mas a música…

Tristan und Isolde, de Richard Wagner, pelo tíquete estou vendo que não foi barato: 83,30 euros. Osterkonzert Bach, Vivaldi e Telemann, 42 euros, Deutsche Oper Berlin, Cavalleria Rusticana, 62 euros, Pergomonmuseum, magnífico, difícil julgar mas diria que deve perder apenas para o Louvre, Dom Zu Berlin (aqui com ene, creio que só os alemães usam assim), Hezlich Willkommen im Dom! Acabei de citar a catedral de Berlim.

Como a gente mistura tudo num pequeno artigo, recordo que na primeira visita a Berlim a Alemanha estava estupidamente dividida. Só um regime maluco, imbecil e inaceitável como o comunismo para ter ideia tão esdrúxula e, pior, coloca-la em prática. Testemunhei e sofri enorme constrangimento ao passar essa fronteira. Declaração do dinheiro na ida e na volta, soldados armados em todos os cantos, eu imagino o quanto a Rússia deve ter aplicado para separar os alemães. Não era simplesmente um muro. Na área vermelha antes do muro haviam outros obstáculos e lembro de uma longa faixa de areia finíssima para assinalar as marcas de quem se atrevesse a ali pisar, impulsionado por ardente desejo não só de vida livre como igualmente de abraçar parentes que na repentina divisão se viram da noite para o dia, impedidos de única visita. Como pode um ser humano de qualquer raça imaginar que um plano dessa natureza pudesse alcançar sucesso. Só mesmo num regime tirânico em que Sua Excelência manda e o povão diz amém.