Nosso querido Paraná é considerado entre os mais cultos da nação e não ignoramos que Curitiba tem uma participação preponderante paa que isso aconteça. Historicamente nossa gente tem demonstrado vivo interesse pela arte e pelas letras, não obstante a crítica nacional volte seu olhar mais fixamente em São Paulo e Rio de Janeiro, não em razões.
E se estou abordando esse complexo tema é para render minha homenagem a Academia Paranaense de Letras. O nosso centro intelectual como não podia deixar de ser já tem sua história. Durante dez dias num longínquo maio de 1936 foi realizado na então capital da República, o Rio de Janeiro, um chamado Congresso de Letras e Sociedades Literárias. Não se falava ainda em Academia. Não sei se já se chamavam alguém de acadêmico, mas lembro que era como nos tratavam quando freqüentava a Faculdade de Direito da gloriosa Universidade Federal do Paraná.
Naquele evento, o já vetusto Centro de Letras do Paraná que havia sido fundado por Emiliano Perneta e Euclides Bandeira no distante ano de 1912, quando se minha memória não se engana, ainda éramos mera província de São Paulo, se fez ali representar por Silveira Neto e Leôncio Correia. Não conheço o motivo da escolha, mas guardo a impressão de que era porque ambos residiam no Rio de Janeiro e, ao tempo, não devia ser barato nem fácil deslocar duas pessoas de Curitiba para o Rio de Janeiro em uma rodovia precária e numa distância considerada das mais longas e duradouras. É difícil para nós que hoje vamos ao Rio em pouco mais de uma hora o que seria fazer essa mesma viagem outrora.
Durante aquele evento foi decidida a fundação da Federação das Academias de Letras do Brasil com finalidade cultural e normativa e destinada a coordenar a atividade literária nacional. O nosso Centro de Letras presidido por Ulisses Vieira que recebeu da Academia Carioca de Letras a sugestão para organizar entre nós uma entidade assemelhada, enquanto o Centro de Letras do Paraná se dissolvera por se deixar envolver por alas divergentes, uma preferindo nomes politicamente destacados e outra acreditando que se deveria compor de pessoas de bom nível literário ou quando pouco artístico e científico. O entrechoque fez ruir a ideia. Alem do mais em princípios de 1922 o nosso Centro de Letras entrou em crise, quando Raul Gomes, voltou-se contra as chamadas tarde de arte que eram realizadas no antigo Teatro Guaíra, sim houve um antes desse que hoje frequentamos, e que eram promovidas por Raul Azevedo, cidadão maranhense mas depois carioca mas então residindo em Curitiba para onde veio administrar o nosso Correio, coisas do destino. Curiosamente também no Correio. Coincidência, Gomes era igualmente funcionário do Correio e, mais, subordinado a Azevedo. E não se deram bem. Desentendimento pessoal que acabou na imprensa e culminou com Gomes embravecido, parafraseando um romance que Raul Azevedo publicara em 1916 sob o título “Amores de Gente Nova”, Gomes no romance real e clandestino que Azevedo mantinha com Emita Tereza, também funcionária do Correio, e escreveu “Amores de Gente Velha” atacando-lhe a impudicícia. Pronto. Divisão no Centro de Letras justamente em época de eleição e a ala contrária a Gomes propõe a sua expulsão. Raul Gomes, entretanto, valendo-se de suas amizades e alegando ser mais “curitibano” e vence a disputa fazendo com que a ala divergente se retirasse entre elas a ilustre figura de Dario Velozo.
Ocorre que a ala vencida logo após (era 1932) funda a Academia de Letras do Paraná, com uma grande festividade realizada no tradicional Clube Curitibano, já no dia 6 de novembro reunindo paranaenses ilustres da época a exemplo de Romário Martins, Silveira Neto, Lacerda Pinto, Dantas Ribeiro, Pamphilo d’Assumpção, Generoso Marques, Samuel César, Serafim França, João Cândido, Andrade Muricy, Rocha Pombo, Nestor Victor, Moysés Marcondes, Leôncio Correia, Alberto Gonçalves, Ermelino de Leão, Tasso da Silveira e outros mais. Rocha Pombo foi eleito o primeiro presidente da entidade, o último foi Alcides Munhoz. Coincidentemente, ao tempo uma pessoa com capacidade de liderança, Ulisses Vieira que convocou a imprensa e o público para uma reunião em que decidiu por unanimidade que uma nova academia com um quadro de quarenta membros vitalícios seria denominada Academia Paranaense de Letras, e que para seu preenchimento seriam aclamados alguns integrantes da extinta Academia de Letras, como D. Alberto Gonçalves, Sebastião Paraná, João Cândido, Andrade Muricy, Tasso da Silveira, Pamphilo d’Assumpção, Leônidas Loyola, Dídio Costa, Santa Rita, Dario Velozo e as cadeiras restantes seriam preenchidas por uma comissão de três membros da antiga Academia e três do Centro de Letras e que, preferencialmente fossem escolhidos nomes de literatos centristas e que, com referência aos patronos, cada acadêmico escolhesse o seu, conservados os da Academia extinta.
Ausentes a primeira reunião mas aprovando a ideia Ildefonso Serro Azul, de São Paulo, Leôncio Correia e Helvídio Silva do Rio de Janeiro e Vicente Nascimento Júnior de Paranaguá. 26 de setembro de 1936 e estava fundada a Academia Letras do Paraná que passou a se dedicar ao seu mister com reuniões, estudos, consultas, intercâmbio e atividades naturais e a 29 de abril de 1937 editava um pronunciamento definindo os objetivos da instituição e convocando uma Assembléia Geral e se instalar no mês seguinte quando foram realizadas eleições para sua primeira diretoria que ficou formada com as seguintes personalidades: presidente, Ulysses Vieira; vice-presidente, Francisco Leite; secretário-geral, De Sá Barreto; 1º secretário, Benedito Nicolau dos Santos; 2º secretário, Ciro Silva; tesoureiro, Pereira de Macedo e bibliotecário, Valfrido Piloto. Foi discutido e aprovado o emblema da Academia, criado por Pamphilo d’Assumpção e decidido que o traje provisório pelos acadêmicos nas sessões públicas e solenes seria a casaca. Certamente porque todos à época já possuíam casacas. De Sá Barreto ficou incumbido de organizar o regimento interno tendo se baseado no do Academia do Rio de Janeiro.
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