Vamos dar brinde ao vinho. Entro no tema sem a menor confiança. De refrigerantes conheço pouco, mas de bebidas com álcool desde meu primeiro porre que resultou em uma sofa inesquecível, parei sem mesmo ter bem iniciado. Para mim vinho é o branco alemão, notadamente o Mosel. Já o tinto o Rotschild ou de qualquer outra família tradicional da França, Itália, Espanhol ou Portugal. Falando em vinho relembro episódio com Raul Viana. Raul era o decano do Tribunal de Contas do Paraná quando lá cheguei nomeado pelo nosso melhor governador, Paulo Pimentel, paulistano que mal chegado ao Paraná teve a ousadia de disputar eleição com o nome mais reverenciado da moderna política paranaense: Bento Munhoz da Rocha, de tradicional família da vida pública araucariana e, para geral surpresa, vencê-lo bravamente para realizar uma administração a que paranaenses muito devemos. Mas e o Raul? Em sua companhia fui a São Paulo para uma reunião de Tribunais de Contas do Brasil e fomos homenageados com um jantar num excelente restaurante. Servido o vinho no copo de Raul, ele que não bebia como eu, experimentou e olhou com ironia para o garçom. “Não. Está passado”. Nós outros nos entreolhamos assustados. Foi a vez primeira que vi alguém proceder assim. O garçom apanhou o vinho, voltou, não sei se com a mesma garrafa (será que eventualmente não fazem isto?), entregou a Raul e ele nos olhando com mestria, sorriu: “Pode servir. Está bom”. Ainda Raul. Em seu primeiro tete-a-tete com ele no TC, pedi-lhe aparte e contestei: “Vossa Excelência me confirme o número do artigo”. Artigo tal. “Perdoe-me caro colega mas esse artigo trata de outro assunto. O que atende a questão em discussão é o artigo tal”. E ele ironicamente: “Mas esse artigo não me interessa”. Nostálgico, sinto saudade dessa época, que me fazia estudar o Direito Administrativo e muito aprender sobre a aplicação do dinheiro público por aqueles a quem o povo confia esse dever. Tanto que cheguei a escrever livros sobre complexa questão.