Será destino ou será apenas sorte? Há pessoas que parecem já nascer a caminho do sucesso. Sucesso na vida, profissional e, melhor, sucesso com as mulheres. Sei que poucos não são e entre os muitos vamos lembrar de um felizardo. Felizardo por viver com três mulheres. Por vezes pode até se converter em castigo.
É de Roger Vadim o depoimento: “Não pude resistir à tentação de abrir o cofre do passado em que tantos tesouros íntimos foram armazenados. Não queria chegar ao fim da vida como um avarento colecionador dessas maravilhosas imagens de conto de fadas que algum dia terão desaparecido juntamente comigo, neste mundo em que tudo é apagado”.
Brigitte, Catherine e Jane: três modernas princesas de contos de fada. No entanto, contos de fada são também contos de crueldade, embora costumem ter final feliz. Quero falar dessas adolescentes, dessas jovens e de quem eram antes de se tornarem princesas.
Conheci bem essas futuras estrelas com quem vivi antes que brilhassem nas telas de todo o mundo. E de suas transformações, por vezes dolorosas mas sempre fascinantes.
A deusa do amor jamais fora visto emergindo do mar até que Boticelli tivesse pintando sua Vênus a flutuar numa concha de madrepérola. Mas foi esse o espetáculo a que dois mil fuzileiros navais assistiram em 12 de maio de 1958, às 11h30, do porta-aviões Enterprise ancorado na baía de Cannes.
Primeiro viram as longas tranças flutuando na superfície do mar, depois o rosto do qual escorriam gotas de água resplandecentes. Aquela boca inocente e sensual, os olhos perfeitamente ovalados, o nariz delicado, as faces redondas como a de uma criança, tinham sido criado para o riso e o prazer. Duas mãos aristocráticas se agarram a beirada do barco Chris-Craft e a aparição ergueu-se subindo a bordo, um pescoço delicado e uma cintura tão final que um homem poderia envolver apenas com as mãos, um traseiro tão redondo, provocante e macio que causaria inveja a Adônis e Afrodite, quadris curvos, coxas longas e firmes, tornozelos graciosos e pés arqueados de bailarina. O minúsculo biquíni, mais uma sombra do que uma roupa nada esconde do seu corpo sensual e glorioso.
Os marinheiros do Enterprise sabiam reconhecer uma deusa ao se defrontarem com ela, mesmo desconhecendo-lhe o nome.
Seus aplausos e assobios podiam ser ouvidos até nas escadarias do Palais do Festivalde Croisette. Correram em direção as amuradas acotovelando-se na disputa por um melhor lugar. De pé no Chris-Craft, Brigitte estourou numa gargalhada: Eles vão naufragar o porta-aviões. Um oficial dirigiu-se a ponte de comando acenando para que subisse a bordo. Era contra o regulamento, mas ele preferiu transgredi-lo a evitar um tumulto geral ou mesmo um motim.
Com natural espontaneidade Brigitte aceitou o convite. Na ponte fez pose, fez com que rissem de sua pronúncia em inglês e deixou-se fotografar por um batalhão de interessados. Dia seguinte, a imprensa escreveu que ao deixar o navio Brigitte havia conquistado dois mil amigos.
O Festival de Cannes estava no auge. Brigitte já havia participado de dois filmes, mas ainda não era uma estrela. Estava acompanhando o marido Roger Vadim, então repórter do “Paris-Match”. Apesar de sua aversão a entrevistas e recepções oficiais e a despeito de nenhum de seus filmes estar sendo exibido no Festival, algo estranho sucedeu ao chegarmos ao Carlton. Os fotógrafos abandonaram astros e estrelas e passaram a caçar Brigitte. E passaram a segui-la por toda parte, no restaurante, nas lojas, na praia esse intrometendo até em nosso quarto.
Recordo, conta Vadim, de quando estava entrevistando Lina rígidarigida, Kim Novak e Kirk Douglas no Palais do Festival e a maioria dos jornalistas estava perseguindo minha mulher, desde as lojas da Rue d´Antibes até as palmeiras da Croisette, a principal avenida de Cannes.
Naquela noite fomos jantar na taberna Napoule. Onde um homem se aproximou e se apresentou como secretário particular de Onassis. Como foi que nos encontrou aqui? Mademoiselle, eu nunca revelo minhas fontes, é uma questão de princípio. Seu patrão tem ótima organização. É verdade. Ele me pediu que a convidasse para a recepção que dará amanhã à noite a bordo do Cristina. Todas as estrelas do Festival estarão presentes e ele pediu para dizer-lhe que sua presença garantirá o sucesso da noite. Tudo bem. Acontece que amanhã vou jantar com o meu marido. A sós.
Brigitte Bardot (Toti para os amigos) evitava jornalistas, não gosta de publicidade. B.B. nunca pensou em ser atriz, seu grande sonho era ser bailarina.
P.S. – Atriz, bailarina ou apenas mulher. Por que só o Vadim? E eu?
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