Reflexão e exclamação, vocábulos emblemáticos da força do nosso idioma. E não sem razão. Com efeito, para corretamente exclamar é necessário prioritariamente refletir.

E, com ou sem falsa modéstia, poucas pessoas têm, como eu, ao longo de várias décadas, refletido tanto tempo antes de exclamar. Não creio que essa conduta tenha-me conduzido a algum sucesso, mas sinto a alegria de estar escrevendo há quase 60 anos (comecei aos 17!) e jamais ter sido chamado à responsabilidade. Aliás, com uma curiosa exceção: nos anos 60, em um período em que nossa nação, por seus dirigentes, virou as costas para a democracia, certo dia fui intimado a comparecer ao quartel do CPOR, onde um militar pediu-me (ou mandou-me?) sentar junto a uma mesa onde outro militar iria tomar minhas declarações.

Primeira pergunta, segunda pergunta, até um momento em que me irritei e decidi enfrentar o problema. Levantei-me e perguntei ao militar que acompanha em pé e atentamente: “Afinal meu amigo, o que foi que eu publiquei e que não era verdade para estar aqui depondo como um réu?”.

A resposta que ouvi foi objetiva: “O senhor não está aqui por nada que tenha publicado, mas por determinar invasão a um território militar”.

E ele tinha razão. Eu havia lido o jornal Tribuna da Imprensa, creio que dirigido na época pelo dinâmico Carlos Lacerda, uma notícia denunciando que o Instituto Brasileiro do Café havia alugado alguns galpões no bairro do Boqueirão para depositar sacas de café. E achei estranho, pois ninguém no Brasil tinha tantos galpões quanto o IBC.

E parece que havia realmente alguma jogada de interesse financeiro naquela operação, tanto que a minha notícia despertou iradas reações.

Mas, como aparentemente a sorte está sempre mais do lado de quem tem razão (Quanto mais trabalho, mais tenho sorte!, proclamou um renomado empresário paulista), logo em seguida ocorreu a revolução e, quem diria, como a revolução de fato removeu muitos militares de seus postos, nunca mais lembraram de mim. Creio, sinceramente, que foi isso que ocorreu.

Como quer que tenha sido, a realidade é que desde então continuo escrevendo todo dia, o que não é nada fácil, mas, felizmente, jamais voltei a ser importunado.

P.S. – Sempre é importante refletir antes de exclamar…

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 3/janeiro/2007