O mundo em que vivemos, nos tempos em que vivemos, vai se transformando dia a dia num enorme palco de lamentáveis conflitos. E o que é mais difícil de entender é que essas guerras internas, que a distância parecem injustificaveis, estão ocorrendo em regiões de triste pobreza, o que significa que os seus governos, de hora para outra, passarão a deixar de comprar alimentos para comprar… armamentos!

Ainda agora a Etiópia e a Somália, dois países localizados no chamado “chifre da África” (a África tem um mapa quase assemelhado ao desenho do Brasil, mas se olharmos para o seu lado direito veremos uma saliência ao norte, onde é situada a Somália, limitada à esquerda com a Etiópia, algumas horas de vôo a partir do Cairo). Eu me familiarizei um pouco com a grande África quando, há alguns anos, recebi honroso convite da Unesco para proferir um curso onde?… em Guiné-Bissau. Minha primeira reação foi correr ao Atlas para me localizar na terra e no espaço. Foi mais que uma aventura, foi uma enorme lição. Comecei por ficar sabendo que em Guiné-Bissau se fala o português. E, surpresa, ao terminar minha apresentação fui chamado ao telefone. Embora estranhando, fui atender e, tão logo disse “alô!”, uma voz com algum sotaque me cumprimentou, afirmando que havia assistido a minha palestra na televisão ou captada pelo rádio, pois bem, não lembro, mas pretendia me felicitar. “E o senhor está falando de onde?” – indaguei. “De Bafatá.” “Hum… muito obrigado, de coração.” Que mais eu poderia dizer, já que me encontrava, embora cercado por pessoas amigas e envolvido por gentilezas, em lugar distante, estranho e para onde jamais teria imaginado viajar? Foi possível, então, conhecer, lógico que muito superficialmente, a grande luta do bravo povo africano, do qual temos parte das nossas origens.

Foi, ademais, doloroso saber que a Etiópia havia deflagrado ofensiva militar contra rebeldes islâmicos da Somália e mandava tropas para a “guerra”, enquanto o governo da Somália ordenou o fechamento de todas as fronteiras, ordem complexa, já que a autoridade federal exerce controle somente na chamada região de Baidoa, situada na parte sul da nação.

P.S. – O pior de tudo é que há, segundo apurou a ONU, dez países fornecendo armas e equipamentos para os dois lados e, por isso, há o temor de que o conflito não permaneça nos primeiros limites.

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 4/janeiro/2007