Recordo que concluí meu último artigo perguntando se tínhamos na chefia da nação um presidente ou um sindicalista. E mais do que rapidamente convenci-me de que não estava errado.

Com efeito, tive a oportunidade de ler no mais respeitável periódico paulistano que: “Um novo regime político está em vigor no Brasil, segundo se depreende das declarações feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele proclamou a mudança ao oficializar um acordo com as centrais sindicais sobre o aumento do salário mínimo para R$ 380. Se houver seriedade entre o governo Federal, o Congresso e os sindicalistas, as pessoas terão de acatar um acordo como esse como uma decisão de uma instância superior, porque aqui está expressa a vontade de um conjunto de pessoas que representam (o erro de concordância é do presidente!) a sociedade brasileira”. Em palavras mais claras, sua excelência pretendeu declarar que a decisão é uma prerrogativa do chefe do governo e dos dirigentes sindicais. Ou não foi presidente? Ao Congresso, onde estão os homens que votamos para elaborar as nossas leis, caberia acatar e sacramentar o “decidido” para que, afinal, o “imbróglio” adquirisse o formato de “legis”.

E li mais o seguinte: “Um presidente democrático poderia defender sua preferência e até anunciar a intenção de veto, no caso de o Congresso aprovar um salário maior. Poderia argumentar com a conveniência de não agravar as condições fiscais. Mas o discurso de Luiz Inácio ficou longe dos padrões da democracia representativa organizada segundo a divisão tradicional dos poderes”.

Mas será, realmente, que o presidente Lula estava pensando nos aclamados padrões da organizada democracia em acordo com a tradicional separação harmônica dos poderes que herdamos de Montesquieu? Ou, por outro lado, estaria agindo como costumava fazer quando liderava sindicatos no ABC paulista?

P.S. – A pessoa é a mesma, mas as funções e as responsabilidades são diferentes. Repito que, nas eleições, votei e perdi. Mas consolo-me ao reconhecer que perdi votando certo.

P.S. 2 – “Lula diz que somos todos iguais, mas eu não sou igual a ele.” (Fernando Henrique Cardoso).

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 10/janeiro/2007