Num jornal catarinense, ao qual peço perdão por não recordar o nome, me deparei com um interessante artigo de autoria de Raquel S. Thiago. Evidentemente, não a conheço, mas lembro que se trata de uma professora, certamente de história, da Universidade de Joinville.
A professora Raquel inicia citando uma frase do Livro do desassossego, do renomado Fernando Pessoa, que diz: “Os compradores de coisas inúteis sempre são mais sábios do que se julgam – compram pequenos sonhos. São crianças no adquirir”. E ela afirma que o escritor, com esse pensamento, revela-se um conhecedor profundo da natureza humana, uma vez que gostamos de possuir coisas, mesmo as mais desnecessárias. Antigamente, quando comprar coisas inúteis era um impulso só permitido aos abastados, o recurso era colecionar caixinhas de fósforos, lápis, papel de cartas, latinhas. Colecionávamos coisas inúteis e ficávamos orgulhosos de tais pertences. E a professora Raquel não lembrou, talvez por não ser do seu tempo, da época em que adquiríamos um enorme álbum com quadrinhos em branco e comprávamos uma bala feita de água, açúcar e algum corante, para preencher os quadrinhos. E trocávamos com os amigos. Como algumas figurinhas eram mais difíceis, na troca, elas valiam três ou cinco por uma.
Bem recorda a professora que, na atualidade, o mundo passou a ser conduzido pelos mercados nacional e internacional e o consumo se tornou imprescindível para a sobrevivência da economia global, alicerçada por uma ofensiva constante da publicidade, que a cada instante nos oferece uma novidade, que quando terminamos de pagar, já está obsoleta, superada pela tecnologia que vem disparando cada vez com maior velocidade na sociedade moderna.
E por que nunca paramos de comprar? Platão acreditava que porque desejo é falta e Sponvile completava que falta é um sofrimento humano. Então vamos às compras para encontrar a felicidade… tornando cada vez mais crescente o inútil mercado moderno.
P.S. – Enquanto divagava por esse tema, veio-me à lembrança a frase de um velho e bom amigo que, ao retornar de sua primeira viagem à Europa, quando indaguei como havia sido, ele foi franco: “Acabei de descobrir que o supérfluo é o essencial!”.
Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 17/janeiro/2007
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