Acabo de ler seu livro, mas não vou falar dele. Quem fala é ninguém menos do que o sempre admirado Jorge Amado. E o que Jorge Amado nos diz de Sérgio Porto, que pontificou no jornalismo carioca com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta? Para Jorge Amado, “o Rio de Janeiro voltou a produzir um grande novelista a somar-se à família que vem de Machado de Assis a Lima Barreto, de Marques Rebelo a Miécio Táti. O recriador da vida carioca de hoje – dono e senhor de uma língua viva, dos sentimentos, dos dramas, das alegrias, desesperos e tristezas da gente carioca, chama-se Sérgio Porto. Um quadro dramático e poderoso, marcado com uma poesia máscula, uma solidariedade humana e uma ternura profunda”.

O livro tem como título apropriado As cariocas e nele Sérgio fala da sua especialidade: mulheres.

E, sabe-se lá por que, dividiu-as pelos tradicionais bairros do Rio de Janeiro, de tal modo que lá estão A Grã-Fina de Copacabana, A Noiva do Catete, A Donzela da Televisão, A Currada de Madureira, A Desquitada da Tijuca e A Desinibida do Grajaú.

Só para se saber que idéias nasciam do cérebro de Sérgio Porto, vejamos este pequeno relato:

– Eu custei a acreditar, mas a verdade é que o médico confirmou: a Zelinda está grávida… mas continua virgem.

– E isso é possível?

– Tem mais. O médico constatou que ela está grávida e virgem, mas para fazer o aborto exige que ela não seja mais virgem.

– Isso é uma besteira.

– Pode ser, e mais ainda, ele se propôs a tirar a virgindade dela.

– Mas a Zelinda disse que preferia ter a criança a ter qualquer contato sexual com ele. Com você, porém, a mãe disse que ela topa.

– Será? Eu sou de acreditar em tudo, mas meu anjo da guarda me ensinou a não acreditar em nada. Meu anjo da guarda é ateu, você sabia?

Tudo bem combinado, encontro marcado no apartamento dele, entre lençóis brancos, enquanto no consultório dr. Rego examinava e se deparou com a ficha de Zelinda Melo com a palavra em vermelho “negativo”. Estranhou, comparou várias fichas do mesmo dia e notou quase todas com resultados positivos e dois negativos, um de Zelinda.

Coçou a cabeça, preocupado com seu erro, pois seria uma indignidade fingir um aborto numa virgem para encobrir um simples engano. Ligou e logo falou:

– Tenho uma boa notícia pra senhora. Houve uma troca de fichas, o exame deu negativo.

– Boa notícia?

– Zelinda não está grávida.

– Ah, então Inês é morta?

– Sim, d. Jupira. Inês é morta.

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 31/janeiro/2007