Não raras vezes espantei-me olhando para o passado. E não estou pensando naquelas pessoas que construíram as pirâmides ou a muralha da China. Estou imaginando simplesmente na hoje corriqueira e vulgar arte de escrever.

Diria melhor… de não escrever. Pode parecer um paradoxo, mas vamos lembrar nomes imortais, a exemplo de Buda, Jesus Cristo e mesmo Sócrates, tão seguidamente citado pelos intelectuais, e constatar que nenhum deles nos deixou um único livro, ainda que fosse em sânscrito, documentando suas vidas e seus tempos. Os registros das pregações, hoje chamados Textos Canônicos, foram produzidos 250 anos após a sua morte por uma comissão de sábios.

Aprendemos com Buda: “Se um homem insensatamente me faz mal eu lhe pagarei com a proteção do meu desinteressado amor, quanto mais mal vem dele mais bondade sairá de mim, a fragrância do bem sempre vem para mim e o ar nocivo do mal vai para ele”. Imaginemos o quanto poderíamos ganhar se em lugar de algumas frases, tivéssemos um livro inteiro escrito por Buda. Ou temos e eu desconheço?

Jesus também nada deixou escrito, mas suas lições de há séculos estão plantadas em todo território ocidental, servindo como indicativo de vida a ser trilhada.

Sócrates, o maior filósofo ateniense, criou a “maiêutica”. Que bicho é esse? Maiêutica socrática é a arte de fazer perguntas ao interlocutor para descobrir as verdades que guarda para si, ou seja, suas melhores idéias.

E, coitado, vítima da ignorância da sua época (foi se meter a falar em maiêutica, que hoje nosso dicionário define como processo dialético e pedagógico socrático em que se multiplicam as perguntas a fim de se obter por indução dos casos particulares um conceito geral de objeto) e acabou não sendo compreendido.

E foi acusado de quê? Acusado de não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas divindades e… corromper a juventude. Por esse grave crime foi condenado à morte por envenenamento por um tribunal popular de Atenas.

Convicto, Sócrates recusou concessões. Poderia se livrar pagando uma pequena multa, o que nada lhe custaria, mas acreditou que esse ato equivaleria a aceitar uma culpa com a qual sua consciência não concordava. E desapareceu no ano 399 a.C. com pouco mais de 70 anos, sem nos legar um único livro. O que dele sabemos, aprendemos com Xenofonte e, notadamente, nos Diálogos de Platão.

P.S. Entrar para a história da humanidade já é difícil mesmo escrevendo muito. Jamais eles poderiam imaginar que se tornariam imortais antes de conhecer o alfabeto. Alfabeto que “consta” teria aparecido primeiro na língua árabe (IV a.C.) com 22 consoantes e 6 adicionais e escrito da direita para a esquerda. Seguido pelo aramaico, que originou outros na antiguidade. E pelo cirílico, eslavo, do século IX, com 18 letras e do fenício, século XI a.C., com 22 consoantes, ou do gótico, criado pelo bispo, Ulfilas, século IV, o grego derivado do fenício, século IX a.C, o hebraico antigo, semítico, 22 consoantes, com o qual foi escrito o Pentateuco e substituído pelo alfabeto hebraico. Até chegar ao nosso A, B, C, D…

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 4/fevereiro/2007