Podem colocar em dúvida porque eu também duvidei. Mas acontece. E acontece onde? Aqui. Sim, no Brasil. Mais precisamente no Espírito Santo.

Em que cidade? Pancas, localizada na divisa com Minas Gerais, habitada por uma comunidade de pomeranos que ali chegou da Europa no século XIX. E ali as noivas se habituaram a casar vestidas de preto, seguindo uma tradição de longos anos da antiga Pomerânia, uma faixa de terra junto ao Mar Báltico onde hoje está a fronteira entre a Alemanha e a Polônia. Uma curiosidade é o fato de que na Pomerânia essa tradição já desapareceu.

Por quê? As sucessivas ocupações do seu território por russos, alemães e poloneses acabaram expulsando ou eliminando sua população, enquanto os demais sobreviventes passaram a viver em cidades alemãs ou polonesas. E a língua que eles falavam desapareceu. Mais uma cultura perdida.

Em contraponto, nas montanhas do Espírito Santo, sobrevive a herança da Pomerânia. Talvez única. São 120 mil descendentes de pomeranos que ocupam cidades fundadas por antepassados a 50 quilômetros apenas da capital Vitória, onde os imigrantes chegaram em dois grupos, o primeiro em 1858 e o segundo em 1872. (Já imaginaram uma viagem da Pomerânia ao Espírito Santos naqueles tempos?) Os documentos registram que eram 2.142, mas todos julgam que o número era muito superior. Chegaram sem falar português e não receberam nenhum auxílio público para se instalar e, talvez por essa razão, se mantiveram isolados em suas comunidades. E ainda hoje, em Pancas, Domingos Martins e outras cidades vizinhas a língua que os filhos aprendem em casa é o pomerano.

E a tradição de casar de preto é seguida por boa parte das noivas, não obstante algumas já prefiram casar de branco.

Essa tradição teve início quando a Pomerânia estava sob o domínio do chamado Sacro Império Romano-Germânico. A história recorda que ali, quando a noiva casava, sua primeira noite não era com o marido, mas com o senhor feudal. E elas começaram a se vestir de preto em sinal de protesto. Teria sido uma das primeiras revoltas femininas?

Era uma noiva de preto dos pés a cabeça, onde usava um chapéu preto com três penas de galinha preta… para dar sorte!

A noiva usava ainda uma fita verde na cintura para significar a esperança do fim da tirania. A tirania acabou, mas a tradição prosseguiu.

E a cor preta foi incorporada ao Pommerhochtied, ou seja, ao casamento à moda pomerana que, diga-se, dura três dias e é a grande festa e um dos mais fortes laços de união na vida da comunidade.

P.S. – “O bom casamento é um eterno noivado.” (Theodor Körner, poeta alemão falecido em 1813.)

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 13/março/2007