Ninguém ignora que a morte é inevitável e causa choques violentos. Porém, são mais violentos aqueles que ocorrem próximos da gente, já que quando ela recai num ponto distante, só nos comove quanto envolve uma grande tragédia, aliás, o que não se dá quando ela alcança alguém da família, um estimado amigo ou um bom vizinho.

Se hoje falo da morte é porque acompanhei o sepultamento de um dos meus médicos; mais que isso, amigo de infância, companheiro na alegria e na dor, aquele que se dispunha a sair da cama em plena madrugada do inverno curitibano para me aliviar de alguma dor em qualquer parte do corpo, e se recusava a receber pagamento: sim, ainda existem médicos assim. O nome deste que falo e que, com lágrimas acabei de me despedir, é o dr. Nélio Ribas Centa. Aliás, estou sendo injusto. Não apenas eu, mas, ao tempo em que estive ao lado do seu corpo inerte, testemunhei inúmeras pessoas, na maioria mulheres, que eram a sua especialidade. (Não estranhem, eu confiava na sua capacidade médica e nunca me arrependi. Pelo contrário, se hoje estou escrevendo é porque ele salvou minha vida do único acidente em que me envolvi, retornando de automóvel de São Paulo, há alguns anos. Não vou relembrar o fato que creio já ter relatado na devida época).

Nélio, que deveria ser escrito sempre com letras maiúsculas, foi uma figura exemplar. Se houvesse cobrado todas suas consultas e cirurgias, por certo hoje teria deixado uma enorme fortuna para a família. Creio, entretanto, que deixou mais do que isso: deixou o exemplo de uma vida dedicada ao próximo, de uma medicina jamais fixada no enriquecimento, pois, de tudo o que recebia, uma parte era para o sustento da família (um afetuoso abraço Maurigilda, Maurício, Maria Cecília e Maria Isabel) e o restante investia no Hospital São Lucas, que era, não segunda, mas quase sua primeira casa.

P.S. – Adeus, “irmão” Nélio. Estou certo de que você está a caminho do céu, tenho a esperança de um dia reencontrá-lo. Se eu, eventualmente, também o mereça.

Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 21/abril/2007