Na década de 70, o International Philosophers Project promoveu uma série de debates entre os filósofos de maior renome à época: Alfred Ayer, Arne Naess, John Eccles, Karl Popper, Lazek Kolakowski e Henri Lefebvre, entre outros. A série atingiu seu apogeu quando se defrontaram Noam Chomsky e Michel Foucault, em 1971, na Universidade de Amsterdã, com transmissão para todo o país e nações vizinhas pela televisão holandesa.
Indagado por que se interessava mais pela política do que pela filosofia, Foucault respondeu: Na realidade a filosofia nunca me importou, mas esse não é um problema. Eu poderia responder com outra pergunta: Por que não deveria me interessar? Que densidade ideológica poderia evitar meu interesse por aquele que é provavelmente o tema mais crucial de nossa existência, ou seja, a sociedade em que vivemos, as relações econômicas em que ela funciona e o sistema de poder que define as normas, o permitido e o proibido em nossa conduta. Sobretudo, a essência de nossa vida consiste no funcionamento político da sociedade em que nos encontramos.
Assim é que não posso responder a pergunta sobre por que me interessa; só poderia responder como poderia deixar de me interessar. Não estar interessado em política constituiria um problema.
Mais adiante: Penso que nas sociedades tecnologicamente avançadas do ocidente as tarefas monótonas e sem sentido podem, em parte, ser eliminadas ou reduzidas ao estritamente necessário e ser compartilhadas com a população em que o controle autocrático centralizado sobre instituições econômicas – e estou falando do capitalismo privado ao totalitarismo estatal ou às várias formas de capitalismo existentes. E quando falo de anarcosindicalismo, me refiro a um sistema fechado e descentralizado de associações livres que incorporem instituições econômicas e outras instituições sociais, como forma adequada de organização para uma sociedade tecnológica avançada. Não há necessidade que os seres humanos sejam tratados como componentes mecânicos do processo produtivo. O que acredito é que se trata de uma tarefa urgente, indicar, relevar, inclusive as que estão ocultas, todas as relações do poder político que atualmente controlam o corpo social, o oprimem e o deprimem. Vou dar um exemplo: O socialismo no final do século XIX admitia que na sociedade capitalista o homem havia alcançado todo o potencial do seu desenvolvimento e auto-realização, que a natureza humana estava alienada ao capitalismo. E sonhava com uma natureza humana finalmente liberada. E usou o modelo burguês. Como a União Soviética, que considerava a sociedade desalienada, suscitando uma sexualidade do tipo burguês, assim como a família e a estética. E o que ocorreu? Na União Soviética e nas chamadas democracias populares surgiu um tipo de sociedade transposta da sociedade burguesa do século XIX. A utopia havia estimulado a constituição da sociedade soviética. E Mao Tsé-Tung declarou que a natureza humana burguesa e a natureza humana proletária são idênticas. Respondendo o que sucederia se o proletariado chegasse ao poder, afirmou: A pergunta é se quando o proletariado chegar ao poder possa exercê-lo com violência, de forma tirânica e injusta e eu creio que isso poderia ocorrer se o grupo que tomasse o poder fosse um grupo dentro do proletariado, uma burocracia ou elementos pequeno-burgueses.
Em resposta sobre que enfermidade afeta mais a atual sociedade, disse Foucault: As definições e classificações de demências foram realizadas para excluir algumas pessoas da sociedade e se nossa sociedade se classificasse a si mesma de demente ela própria se excluiria. Nada é mais conservador do que as pessoas que afirmam que o mundo moderno está afetado pela ansiedade ou pela esquizofrenia; esse é um artifício para excluir certas pessoas ou certospadrão de comportamento.
P.S. – Espero que o leitor me perdoe algumas falhas, pois se trata de tema complexo e que ousei extrair do livro La naturaleza humana: justicia versus poder, do americano Noam Chomsky e do francês Michel Foucault, o primeiro falecido em 1928, o segundo em 1984, o primeiro professor da Universidade da Pensilvânia e do Instituto Tecnológico de Massachusetts; o segundo, membro do Partido Comunista Francês que desenvolveu a teoria do discurso discutindo problemas de hospitais, manicômios, prisões e escolas.
Publicado no jornal “O Estado do Paraná”, 22/abril/2007
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