Expressou-se muito bem aquele anônimo que algum dias falou, alhures, que as melhores lições a gente acaba aprendendo não na escola, nem na faculdade, mas com a experiência da vida. Evidentemente isso não significa que a escola é dispensável. Sem bem aprender a ler e a escrever (quanto menos!), de nada adiantaria as lições da vida, pois faltaria conhecimento para aplicá-las. A mim a vida muito ensinou. Com alguns paradoxos. Como se entender que um imigrante árabe, meu pai, Salomão Elias Féder (creio que já contei que era Faddha, que significa prata), com dificuldade para se adaptar num país distante e desconhecido. Na Europa, perguntavam se havia cobra nas ruas, defrontando-se com dificuldade de comunicação até dominar nosso idioma, insistisse para que seus filhos se dedicassem com afinco aos estudos, o que aliás, no meu caso não foi tanto, mas do meu irmão Elias, vou te contar.
Elias teve a juventude que todos gostam, sem horário, sem responsabilidade, preocupado em viver a vida. Morávamos em Campo Largo e era atravessar a rua e estávamos no Grupo Escolar d. Pedro II. Mas na frente ficava o Clube Campolarguense. E meu irmão e um colega, se não me engano, Grimoaldo, (jamais encontrei outro alguém com esse nome) preferiam se encontrar no clube. E lá estavam uma tarde quando veio um toró permeado de violentos relâmpagos, até que, assustados, decidiram voltar. E meu irmão chegou encharcado, dizendo para meu pai que havia sido expulso da aula. O sangue árabe ferveu, tomou meu irmão pelo braço e foi à escola falar com a diretora, dona Nenê Portela com quem reclamou da professora, dona Nicota. A diretora os levou até a sala de aula conversou com a professora, narrou o fato a dona Nicota os introduziu na sala e fez uma pergunta aos alunos. “O Elias esteve na sala hoje?”. Uníssono: “Nãããão!”. Até hoje ele lembra da surra que levou. E curioso: mais tarde estávamos na praia, creio que Caiobá, e meu irmão numa roda de amigos, quando alguém perguntou, você estuda onde? Todos respondiam e meu irmão, baixou a cabeça e respondeu que não estudava. Essa lição de vida levou-o de volta ao estudo, acabou fazendo aquele compactado que era denominado madureza, equivalente a ginasial. Hoje, parece-me ainda existente com o nome de supletivo. E obteve êxito. Passou fácil no vestibular da gloriosa Universidade Federal do Paraná, onde foi colega do José Richa e se tornou excelente dentista por algumas décadas, até se aposentar.
P.S. – Uma lembrança curiosa a propósito do seu colega José Richa: ele não foi um estudando muito dedicado. Já na época pensava mais em política, desde política estudantil até política de verdade que era seu sonho. E numa das várias provas finais em que geralmente “empacava”, certa vez, num exame com o professor Cavagna, dos mais austeros, depois de muito insistir, o mestre lhe falou: “Senhor Richa, eu vou lhe aprovar com a consciência tranqüila, porque o senhor jamais será um dentista”. Sábia profecia! Seu aluno seria governador do Estado!
Publicada no jornal “O Estado do Paraná”, 11/maio/2007
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