A Espanha é, dos muitos países que conheci, o que mais me encantou. Não só pela recepção acolhedora e simpática da sua gente, da relevância dos seus museus, da excelente oferta das suas livrarias e dos seus emocionantes espetáculos. Detalhe importante: não estou me referindo ao espetáculo das touradas, que sempre evitei por não constarem no lado positivo das minhas preferências. Curioso que uma amiga minha declarou gostar de ir às touradas simplesmente para torcer pelo touro. É uma opção.

Minha mais próxima relação com a terra de Cervantes está localizada na região de Málaga, Granada e Sevilha, onde tive carinhosa recepção.

Mas só agora tomo conhecimento de que estando em Granada estive tão perto de Campillo de Ranas, nem jamais poderia imaginar que essa cidade, localizada a 120 quilômetros de Madri; nunca esqueço de como é enorme o seu aeroporto, notadamente quando se chega em cima da hora para uma viagem internacional, em verdade como os demais nas principais cidades européias, a exemplo de Frankfurt.

A propósito, gravei uma lição: em vôos internacionais sempre se deve criar horários que não nos ofereçam o menor problema.

Ocorre que Campillo de Ranas elegeu para prefeito o “señor” Francisco Maroto que entrou numa “guerra” estranha contra o padre por uma razão insólita: celebração de matrimônios, até porque não tinha conhecimento de que na Espanha os prefeitos concorrem com os padres nesse ofício.

Mais interessante ainda foi o resultado. Promovendo casamentos sem discriminação, a cidade que estava em fase de inteira decadência com a queda de população gerando uma falência econômica, começou a sentir um crescimento, atraindo inicialmente homossexuais e, em seguida, também heterossexuais.

Gostem ou não os moralistas, o casamento gay recebeu apoio do prefeito e acabou sendo aprovado em lei, segundo o prefeito com a intenção de transformar Campillo de Ranas em uma espécie de Las Vegas, ainda que a localidade em lugar de atraentes cassinos seja conhecida como a cidade construída com blocos de pedra e telhados negros. E a imprensa local assim definiu a questão, depois que o juiz de paz, contrariado, renunciou: “Não foram apenas casais homossexuais que se deixaram atrair por Campillo de Ranas. Dos 78 casamentos celebrados por Maroto, 55 foram de casais heterossexuais.” Diz o prefeito que os casais não gostam da atmosfera fria dos cartórios e aqui a cerimônia tem um toque especial. Em um casamento cujo tema era “O Senhor dos Anéis” ele se vestiu de Gandalf para celebrar a cerimônia. E a novidade acabou atraindo pessoas e negócios para a cidade, atraindo precipuamente casais jovens com preferência pela vida das cidades menores e com algum encanto próprio. E Campillo de Ramas inicia uma etapa de renascimento tanto econômico quanto social. O que foi comprovado por um dado relevante: a escola local, fechada há 30 anos, enfim conseguiu reabrir com alunos suficientes e a cidade passou a acesso às redes de telefonia móvel, ou seja, Campillo se insere no mundo globalizado. E isso é bom ou não?

P.S. – São Paulo vai construir 44 novos presídios. Triste notícia. Bom seria que a construção fosse de hospitais, escolas, creches etc