Não sei qual a razão, mas tão logo escrevi o título desta conversa com o leitor veio-me em mente a figura inesquecível do amigo Aníbal Curi. Parlamentar que marcou época em nossa política com admirável capacidade para eliminar as crises e pacificar os ânimos. Claro que também teve desafetos, porquanto esse é preço inevitável da vida política.
Recordei-o, todavia, por duas frases com que ele costumava me saudar quando o visitava na Assembléia Legislativa, onde era o primeiro-secretário e, embora pudesse, nunca quis ser presidente. Bem comparando, Aníbal era uma espécie de primeiro-ministro, já que nenhum governador (ele passou por vários governos) tomava iniciativa relevante sem consultá-lo, para contar com o referendo do Legislativo.
A primeira frase era a resposta à minha indagação: “Tudo bem deputado?” E ele, ironicamente: “A crise está ruim”. Seguidamente me fitava de alto a baixo e soltava: “Que elegância. Vou arrumar para você uma amante argentina”. Ao tempo costumava-se afirmar que uma bela amante argentina era capaz de consumir qualquer fortuna. Mais facilmente do que um cavalo de corridas.
Jamais esqueci da “crise está ruim”. E atualmente a maldade da crise está afetando a cultura. O que, aliás, é compreensível. Quando a moeda falta corta-se o supérfluo. É, por triste que seja, o pão é de maior importância que o livro. Feliz o povo que pode dispor de ambos à vontade.
E desta vez a crise está mais ruim, perdoem-me, pior. E generalizada. Nem a meca do capitalismo conseguiu dela se livrar. Com efeito, em fins de 2006, turistas na Times Square viram uma multidão assistindo Madame Butterfly, de Giacomo Pucini, em telão em frente ao Metropolitan Opera, ao ar livre, pois ingressos estavam esgotados.
Oh tempora, oh mores. A crise atingiu a ópera inclusive para o Metropolitan. Diz Peter Gel, diretor do Metropolitan, que devido a três fatores: o alto valor do ingresso (nos Estados Unidos a entrada para bom espetáculo custa a partir de 150 reais). Isso na suposta capital mundial, já que na Europa o preço é o dobro e até o triplo dependendo do espetáculo. Sem falar na valorização inexplicável do euro. Outro motivo é que o público está cansado de assistir sempre Mozart, Verdi e Wagner. Difícil atrair a nova geração, mais culta e amparada em inigualáveis recursos artísticos e tecnológicos, e a concorrência do cinema e da televisão, notadamente a última, milagre da ciência que coloca a frente da nossa poltrona preferida os mais aplaudidos espetáculos dos palcos mundiais.
P.S. – “O verdadeiro processo é pensar; a máquina fundamental é a inteligência”. (Fernando Pessoa, escritor e poeta português que viveu de 1888 a 1935).
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