Nem precisaria esclarecer, é evidente que não o entrevistei e nem poderia fazê-lo da nossa distante Cidade Sorriso. Revelo, pois, que estou baseado em leitura na imprensa nacional e, notadamente, na entrevista que a esperta e competente jornalista Luiza Villaméa conseguiu e que a revista ISTO É fez chegar ao público. Detalhe: essa entrevista foi realizada na sala da gerência de operações especiais do presídio da Papuda (Brasília). Um aplauso àqueles que não dificultam a ação dos profissionais da imprensa que, na verdade, são legítimos representantes do interesse público.

Na tarde de uma quarta-feira, ele foi retirado de uma cela, onde cumpre a pena ao lado de um austríaco condenado por crimes fiscais. Do lado de fora segurança, homens com metralhadoras; dentro da sala dois agentes armados em posição de sentido.

Cesare Battisti é uma pessoa de aparência frágil, tem 54 anos de idade e se tornou pivô de uma crise diplomática entre Brasil e Itália. Não sei se a primeira, mas aquela que mais rapidamente ganhou espaço na mídia das duas nações, a ponto de ameaçar as boas relações internacionais. Histórias inimagináveis que a vida prepara: hora para outra um cidadão anônimo cria tal polêmica que chega a ameaçar a paz.

Até o momento a questão não está clara: será ele um assassino malvado, responsável pela morte de quatro pessoas em seu país? Ou será um ex-guerrilheiro que não teria chegado a executar e nem participar dos crimes que lhe imputam? Como quer que seja, os fatos o levaram a ser protagonista de um conflito entre dois países, tradicionalmente amigos e quase irmãos, bem como de uma novela internacional que envolve o serviço secreto francês e, imaginem, até a primeira dama francesa, a cantora italiana Carla Bruni.

Falando à imprensa Cesare Battisti afirmou que jamais matou alguém e que “o refúgio que me foi concedido pelo Brasil foi um gesto de coragem e humanidade do ministro Tarso Genro”. E contou aos jornalistas que, há três décadas chegou a usar um documento falso com o nome de Joseph Ferrari e quanto a sua estada na prisão da Papuda disse que tem boa convivência com os demais cinquenta presos e que um deles até corta o seu cabelo. E que ocupa seu tempo escrevendo e tem recebido cartas de várias partes do mundo em seu apoio.

Ex-militante do grupo Armados pelo Comunismo, uma facção da extrema esquerda italiana, chegou a ser preso na Itália. Conseguiu escapar em 1981, fugiu para a França, depois para o México e começou a escrever livros. No principal deles conta as peripécias de um fugitivo pelos caminhos do mundo, sem dúvida uma boa ideia. Mais tarde, amparado na doutrina Miterrand que protegia guerrilheiros dispostos a renunciar à luta armada, viveu 11 anos em Paris, onde contraiu matrimônio e teve duas filhas. Quando o governo Jacques Chirac reviu a doutrina Miterrand, viu-se forçado a fugir novamente. E… desembarcou no aeroporto de Fortaleza (Ceará), seguindo para o Rio de Janeiro e continuou a escrever romances policiais até se tornar personagem de um deles.

Preso em 2007 foi encaminhado para a penitenciária da Papuda, Brasília. Aguardando o pedido de extradição, ele temia ser enviado de volta à Itália, onde, além do mais, imaginava que pudesse ser assassinado.

E pleiteou, então, refúgio político, cujo atendimento pelo ministro Tarso Genro explodiu como um tufão diplomático, abrindo uma crise entre duas nações historicamente amigas. Em Roma, manifestantes protestaram na frente da embaixada brasileira (aquela que dizem ser suntuosa!) e os senadores chegaram a propor que a Itália boicotasse os produtos do Brasil e que os italianos deixassem de viajar para nosso país. Para tornar pública a sua posição a Itália mandou chamar de volta Michele Valensise que ocupava sua embaixada em Brasília. Nas relações diplomáticas a retirada de um embaixador é a última medida antes de um rompimento. O presidente Luiz Inácio enviou uma carta ao presidente italiano Giorgio Napolitano, para justificar, declarando que fora ato soberano do Brasil e que merecia respeito. Na ocasião, parte da imprensa recordou a questão do banqueiro Salvatore Caciolla, que estava condenado a mais de dez anos de prisão.

Curiosidade: No final do ano passado, Carla Bruni e seu marido, o presidente da França Nicola Sarkozy, decidiram passar o fim-de-semana no Brasil. Estiveram com o presidente Luiz Inácio, no Rio e alguns jornais informaram que teriam feito apelo em favor de Battisti. Carla e sua irmã, a atriz Valéria Bruni Tedeschi, defendem publicamente os ex-terroristas italianos que vivem na França e Sarkozy teria sido levado por conveniência política ou remorso, já que ele venceu as eleições de 2007 acusando sua adversária Segolène Royal de proteger terroristas. Mas, depois compôs seu governo com a esquerda francesa. Política é igual em todo mundo.