A vida se esvai mas a história fica. João Féder marcou a imprensa paranaense e a memória de quem pode conhecê-lo.

O professor Féder falava baixo e pausado. Azar de quem não prestasse atenção na sua aula nas quintas-feiras pela manhã que, por detrás do pretensioso nome de Ética Jornalística, ensinava os fundamentos da legislação que cerca o exercício do jornalismo.

Naqueles anos 1980, quando a ditadura havia morrido, mas a democracia ainda não andava com os próprios pés, era normal defendermos a liberdade total da escrita, como uma revanche aos anos de chumbo.

A liberdade de expressão, acreditávamos nós na nossa ingenuidade, deveria ser ilimitada. Qualquer um que discordasse era um defensor da censura e do Regime Militar, as maiores ofensas que podíamos imaginar naqueles tempos.

Até conhecermos João Féder. Com sua ponderação, Féder foi semeando dúvidas: até onde vai a liberdade de quem erra? E o erro intencional, a mentira, falsidade também fazem parte da liberdade de expressão?

Como diferenciar uma acusação de uma ofensa? Como o cidadão pode se defender de uma mentira? Como entender que a cada reportagem estamos mexendo com a reputação de pessoas reais, mães e pais, filhos e vizinhos que terão de conviver com uma falsidade? Como ter a coragem de admitir e corrigir erros? Como compreender que com a liberdade assumimos também um compromisso com a verdade?

Em uma manhã de prova sobre injúria, calúnia e difamação, Féder nos disse que aquele seria o nosso teste mais importante. “Se vocês forem bem na prova, entenderem esses limites, nunca serão presos”, brincou. Permita-me discordar, professor. O senhor nos ensinou muito mais do que escapar de um processo. Nos ensinou a sermos pessoas melhores.

Thomas Traumann, jornalista. Foi aluno na Universidade Federal do Paraná na década de 1980

O professor João Feder dava aulas de Ética, no Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná. As aulas dele não se limitavam as salas de aula. Ele foi uma das pessoas mais ÉTICAS que eu conheci.

Taí um Jornalista que merece todas as homenagens possíveis. Admirei e continuo admirando. E falo no presente, pois o legado que ele deixou não morre nunca.

Elisabeth Fortes, jornalista

Sempre comparei o professor Féder com a fonética em inglês do sobrenome dele. E não só pela figura longilínea. Jamais encontrei um professor mais educado, mais suave, mais gentil.
Tive aula de Ética e Legislação com ele, nos tempos de Jornalismo na Universidade Federal do Paraná. Depois fui trabalhar no jornal “O Estado do Paraná”, onde ele era diretor. Aí foi aula magna e prática. Ele exercia o que ensinava.

Tonica Chagas, jornalista

Foi talvez o chefe mais democrático que conheci. Sua sala, na antiga sede de O Estado do Paraná e da Tribuna (jornal que criou), na rua Barão do Rio Branco, era um território aberto. Ali, parte da redação se reunia à noite com ele para assistir ao jornal da TV, na segunda década dos anos 1960, logo transformado no Jornal Nacional, na telinha da TV Iguaçu/Canal 4, que, à época, retransmitia a programação da Globo. E o acesso era livre também na sua ausência.

Assim era o jornalista, escritor, advogado, professor e futuro conselheiro do Tribunal de Contas João Féder. Dirigia os jornais com sua presença discreta, suave, nunca levantando a voz.

E também punha a mão na massa, sentando ao lado de repórteres e redatores para discutir e até colaborar nas matérias. Na chefia de redação estava o jornalista Mussa José Assis, com sua competência; outra figura inesquecível.

João Féder foi também meu professor no Curso de Jornalismo da UFPR, na matéria de Ética e Legislação da Imprensa. E era comum sair do conteúdo do tema, tão árido, para passar aos alunos noções práticas e importantes da vivência jornalística, conversar sobre jornais, pequenos segredos da redação e a hierarquia dos assuntos. Considerava as coisas da cidade mais importantes que as notícias nacionais e internacionais.

Lembro que sob o vidro de sua mesa de trabalho havia um papel datilografado com uma frase que dizia algo como ser preciso viver como se a gente não fosse morrer nunca, mas agir como se fôssemos morrer no dia seguinte.

Aprendi muito com ele.

Júlio Zaruch, jornalista

Féder foi competente e talentoso em todas as múltiplas atividades que desenvolveu.

Como jornalista, foi o criador da “Tribuna do Paraná”, dirigindo depois “O Estado do Paraná”, quando foi meu chefe e amigo. Na Universidade Federal do Paraná, fomos colegas de docência. No concurso, foi ele quem alcançou as melhores notas e, depois, nas avaliações periódicas feitas pelos alunos, era sempre o melhor avaliado.

Posso afirmar com absoluta certeza, pois testemunhei seu desempenho como jornalista e como professor. De certa forma, através de seus livros, também posso me considerar testemunha de sua atividade no Tribunal de Contas do Estado, pois ele colocou em letra de forma os critérios para as decisões que tomou, refletindo sobre as funções do órgão ao qual dedicou boa parte de sua vida, estabelecendo o melhor modo de exercê-las, com amor à causa pública. Um grande paranaense, que sempre me honrou com amizade e confiança.
Exemplo para as novas gerações!

Helio Puglielli, jornalista

João Féder. Grande e inesquecível amigo. Culto, capaz e responsável. Incorruptível. Excelente jornalista e homem do rádio. Aqui convivemos muito. Incapaz de uma maldade. Mais tarde, durante muitos anos, fomos colegas no Tribunal de Contas. Féder defendia sua posição com muita firmeza . Belos votos, pois era dono de um português corretíssimo e de fácil entendimento. Sempre coerente, procurava somente fazer justiça. Deixou muitas saudades. Mas o maior legado foi a coerência de seus posicionamentos. Como foi bom ter convivido com ele. Aprendi muito.

Rafael Iatauro, companheiro de rádio e conselheiro aposentado do Tribunal de Contas

Dentre os brilhantes da minha turma de Direito da Federal, João Feder sempre foi um dos destaques, característica que ampliaria como jornalista e posteriormente como conselheiro do Tribunal de Contas. No jornalismo deu embalo na Tribuna do Paraná a promoções sociais equilibrando o peso do material esportivo e policial dominantes. No Tribunal de Contas condenou formas deturpadas de subvenção nas relações da mídia com o governo e seus pareceres guardaram sempre um tom de boa doutrina.

Luiz Geraldo Mazza, jornalista e colega de turma de Direito da UFPR

Ao pensar em fazer um pequeno retrospecto dos meus 18 anos de carreira jornalística, na época em que mantinha minha coluna diária no jornal “O Estado do Paraná”, percebi de imediato uma circunstância inevitável: em todo o texto teria que estar citando constantemente o nome João Féder, professor universitário, jornalista e diretor de jornal de primeira linha.

Presidente do Tribunal de Contas do Paraná, entre inúmeras outras atividades que exerceu durante a vida, Féder, na minha opinião, tinha uma qualidade extraordinária: à parte de todos era o amigo mais fiel, sincero e honesto que conheci.

Todos os que tiveram o privilégio de conhecê-lo de perto (não eram poucos), concordariam com o que digo.

Além da área profissional, onde me ajudava normalmente, tínhamos um convívio especial, com um grupo que se reunia invariavelmente aos sábados para a feijoada do Hotel Slaviero.

Além disso, tinha relações de amizade no Palácio Iguaçu, no Tribunal de Contas, Universidade Federal do Paraná e em vários outros lugares importantes do Brasil.

Foi o meu maior incentivador no jornalismo e eventualmente me convidava para dar uma aula na universidade, para os seus alunos dessa matéria.

Escreveu vários livros, nos quais relembrava muitos episódios da vida profissional e das atividades em que ela o levava.

Sem dúvida não dá para deixar de reconhecer que foi uma pessoa inesquecível.

Carlos Eduardo Jung, jornalista