Todos sabemos como é boa a vida. E que envelhecer com saúde é igualmente agradável. Sucede que, bem meditando, começo a descobrir que a velhice, ainda que lúcida e até por isso, tem um preço injusto: É doloroso testemunhar a partida dos nossos melhores amigos, aqueles que nos fazem falta e que mais falta fazem à própria sociedade, caso especial e recente em que nos deixou o Dr. Francisco da Cunha Pereira Filho. Curiosa a vida. Conheci-o na juventude, belo, elegante e saudável, dirigindo moderno automóvel, uma de suas paixões e cobiçado por não sei quantas lindas jovens. Eu, mais novo que ele, quase assustei ao entrar na sala da Faculdade de Direito da gloriosa Universidade Federal do Paraná e encontrá-lo como professor, didático, paciente e dominando uma turma de mais de cem alunos. Quem, como eu, já lecionou, sabe que não é fácil manter atentos tantos membros do que hoje chamam de uma galera. E ele o fazia sem levantar a voz. Com simpatia e eloquência, virtudes essenciais para o exercício do magistério. Como altivo pinheiro de nossa araucária.

Acompanhei um pouco distante a evolução de sua carreira, mas uma feliz coincidência fez com que viajássemos juntos para a Europa, eu e minha Rose Marie e Francisco e sua Terezinha. Percorremos não lembro quantos países de tantas línguas e moedas, hospedamo-nos nos melhores hotéis, alimentamo-nos em ótimos restaurantes mas seria enfadonho citá-los. Vale, porém, lembrar alguns episódios. Fomos a um show do Lidô, em Paris, casa lotada e nos colocaram no “paraíso”. Paraíso, sabem, é aquele último lugar lá no alto do segundo balcão. Francisco não se conformou, chamou o responsável e, enfurecido (foi a única vez que o vi feroz): “Ne c’est pas possible” (será que escrevi corretamente?). Francisco era um “gentleman”, mas quando contrariado, sai de baixo. Acabaram nos arrumando outro lugar. Aplaudimos vários espetáculos, comemos do bom e do melhor, inclusive no renomado Alfredo, internacionalmente conhecido. Ali pedimos naturalmente o fettuccine, servido pelo próprio. E quando Francisco olhou o prato virou-se e falou: Como, só isso? Nem uma bisteca por cima? E o Alfredo, meio assustado: “Siñore, bisteca no”. Divertido acompanhei a discussão em torno de questão de tão relevante importância. Jantar excelente. Alugando carros (novidades para nós os modelos europeus) visitando países famosos e alguns estranhos e até brincando com as dificuldades de comunicação. Só um exemplo. Não recordo em que cidade eu tentei pedir informação e compreendi a pergunta que me foi feita: O senhor é romeno?…

É complicado para nós que atravessamos um país enorme sem qualquer dificuldade, na Europa, a cada pequena viagem ter que se defrontar com novo idioma, nova moeda, nova alimentação (na Holanda sofri), novos costumes, acertando sempre o relógio e “cositas mas”. Relembro com saudades aqueles dias e mais ainda a amiga e agradável companhia do casal.

P.S. – Todavia, como tudo tem um fim, espero que ele esteja reservando para mim um lugar ao seu lado no céu. Isto é, se eu também o merecer…