Verdade. Eu, democrata convicto, ferrenho inimigo dos ditadores, certa vez apoiei Fidel Castro. Jornalista jovem e idealista, com sonhos de consertar o mundo pela força da palavra escrita, quando Fidel anunciou seu grito revolucionário eu era, não lembro se já diretor ou ainda redator do jornal O Estado do Paraná, cuja sede funcionava ainda na Rua Barão do Rio Branco, lá embaixo próximo da estação ferroviária e num só impulso escrevi artigo aplaudindo seu gesto e apoiando-o com entusiasmo. E estava correto com minhas ideias e convicções, porquanto Fidel começava a luta para derrubar uma ditadura, a de Fulgêncio Batista. Como abomino ditadura seja ela política, ideológica, cultural, científica ou de qualquer natureza, recordo que escrevi um artigo contundente sob o título “Todos a Sierra Maestra”, local onde o brado foi ouvido.
E continuei elogiando Fidel após sua posse e até o dia em que ele me surpreendeu, não, em que me decepcionou não se dizendo ditador mas foi como se o fizesse, pois proclamou: Cuba não precisa mais de eleições. E deu o ponto de partida para uma das mais longas e perversas ditaduras da história política, suprimindo a liberdade e fazendo reduzir a alegria de um dos povos mais animados da América. E não só animado, inteligente e trabalhador, culto e destemido e com um passado digno do orgulho de todos seus filhos.

Quem poderia acreditar que um homem que havia sofrido na carne o sofrimento de uma ditadura, que havia enfrentado esse regime e o acusado de graves atrocidades, graças ao que conquistou simpatia internacional ao chegar ao governo e ser festejado como chefe da sua nação, pudesse, sem mais esta ou aquela, esquecer de tudo, desmentir seus discursos, queimar seus ideais, pisar bruscamente sobre os princípios de liberdade que foram sua bandeira de revolução, mudar radicalmente de pensamento para se transformar num xérox do ditador que tanto amaldiçoou chegando-o a comparar a lúcifer. É verdade pura, ninguém sabe o que se esconde no coração humano e, notadamente, naqueles humanos que não tem coração, a exemplo daquele que tanto combateu a ditadura para se fazer um dos mais cruéis ditadores.

P.S. – Aqueles que acreditam na igualdade e na vida em sociedade, e confiam num regime constitucional para uma salutar convivência política e social, jamais se sentirão confortáveis sob um regime discricionário.