Recordo com saudade que havia um importante jogo entre Paraná e Bahia, em Salvador e havia apenas duas linhas telefônicas entre as duas capitais. E nós, da Rádio Guairacá conseguimos uma delas. Naquela época o campeonato brasileiro não era disputado entre os clubes campeões, mas entre as seleções formadas pelos melhores jogadores de cada Estado, o que na realidade me parece um sistema bem mais interessante e justo. Interessante porque uma seleção tem o apoio de todas as torcidas e justo porque não favorece a um único clube. Não lembro quando se processou a alteração e nem de quem foi a ideia, para mim tão infeliz quanto inadequada e absurda.
Uma curiosidade que só poderia acontecer na incomparável Bahia. A equipe baiana foi preparada por longo tempo por um técnico chamado Sotero. E o futebol baiano, como ainda hoje, era um dos mais capacitados do Brasil, enquanto o do Paraná não tinha fama nenhuma. Começa a partida, estádio lotado e a torcida baiana empolgada. Mas jogo difícil e igual. A torcida já impaciente à espera do gol baiano, quando de repente e surpreendentemente, gol! Ocimar, avante do C. A. Monte Alegre, com um belo chute balança a rede baiana e cala a torcida. Cala até encerrar o primeiro tempo, quando o estádio uníssono gritava: O Sotero é de morte. Ele faz um time fraco e diz que é forte! Genial. E extremamente baiano.
Talvez seja saudosismo e reconheço que já não sou mais autorizado a intrometer-me no assunto, verdade que já fui do ramo porquanto por mais de três décadas formei uma dupla com Rocha Braga, liderando as transmissões esportivas pela Rádio Guairacá, a Voz Nativa da Terra dos Pinheirais, slogan criado pela inteligência diferenciada do saudoso mestre Aluízio Finzetto, com quem aprendi tanto ou mais do que na Universidade. Criativo, tudo sabia de rádio, após estágio feito nos Estados Unidos, produzia e até interpretava melhor do que todos. Só não cantava.
Jamais vou esquecer de uma cena em uma novela que era representada ao vivo, em que Finzetto ia matar um bandido e o tiro seria de um disco de efeitos. Havia disco para chuva, para corrida de automóvel, para tempestade, para tiroteio, para o que o script exigisse. E Finzetto falou: “Agora você não escapa”. E a técnica deveria colocar o som do tiro. Mas o técnico de som, talvez nervoso, não encontrava a faixa certa. Sim, era uma gravação com várias faixas, cada uma com um som diferente. Como não houve o estampido, Finzetto, com presença de espírito sacou: “Meu revólver falhou, mas vai morrer na ponta da minha faca”.
Ironia. Nesse momento o técnico acertou a faixa e puuum. Foi uma gargalhada geral e, logicamente, a interrupção da transmissão.
Os profissionais que fazem rádio atualmente, beneficiados pelos avanços da tecnologia, não imaginam como era difícil e sofrível mesmo apresentar uma novela ou um simples programa elaborado. Aliás, convenhamos, o rádio atualmente se limita a apresentar músicas gravadas. À época em que eu trabalhava na Rádio Guairacá, a emissora tinha uma orquestra de concertos dirigida por maestro para apresentar músicas clássicas, uma orquestra típica argentina só para executar tangos, um pianista para acompanhar cantores clássicos, a exemplo de Humberto Lavalle, por certo uma das mais lindas vozes do canto araucariano. A Orquestra do Genésio, a melhor que tínhamos para se dançar, tinha um programa semanal ótimo. Zé Pequeno, com quase dois metros de altura, também tinha seu programa. E um conjunto musical acompanhava cantores, Léo Vaz, Itané Leão e outros e cantoras, Nilda Ferreira, Maria Jurandir, Isley e outras que minha memória pede perdão por esquecer. Rádio era “broadcasting”. Será que o pessoal hoje sabe o que seja broadcasting? Deixa prá lá…
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