Devo principiar declarando que custei muito a escrever sobre o tema deste artigo. E se custei é porque o tema não agrada a quem escreve e também não a quem lê. Sem mistério: vamos falar sobre a morte. Não é o temor que nos afasta do tema. Sabemos todos que a morte nos espera desde o momento em que a gente surge para a vida. Ela é certa, definitiva e pode ser dolorosa ou indolor, rápida ou lenta, em casa, num hospital, no trânsito louco da vida moderna que ainda vai acabar sufocada pelo excesso de veículos, no ar, no mar ou, melhor, nos braços da pessoa amada.
Se bem me recordo a primeira vez que, recentemente, escrevi sobre “ela” foi quando perdemos Odilon Túlio Vargas. Túlio foi meu amigo de infância e meu colega de faculdade: bacharéis em Direito pela gloriosa UFPR na turma de 1954. Túlio era de família política, mais abonada, tinha carro e no seu Chevrolet verde a gente passeava, viajava e até namorava. Naquela época ainda não haviam inventado o motel. Aliás, nos Estados Uniods já, mas não com a finalidade de ganhar dinheiro fácil como aqui. Motel lá eram os hotéis que ficavam ao longo das rodovias. Não sei quem foi o brasileiro que adotou o nome e alterou a finalidade.
Pois bem, depois nos deixaram queridos amigos e parentes e nos últimos dias perdi aqui Leônidas Hey de Oliveira e, em São Paulo, Arnoldo Vicente de Lima Barbosa. Leônidas foi meu especial amigo e cidadão exemplar a serviço da sociedade. Sério, inteligente, incapaz de uma ofensa ou discussão, tal a sua paciência e apreço a boa convivência. Prestou serviços inestimáveis a cidade, ao Estado e ao país como profundo conhecedor do direito. Guardo na lembrança que ao ser nomeado para o Tribunal de Contas, Gabriel Baron me falou: você vai ter um colega especial, porquanto ele já conhecia as qualidades de Leônidas e eu só vim a conhecê-las quando debatendo com ele no plenário do Tribunal de Contas e num agradável convívio.
Mais recentemente perdi meu irmão paulistano. Sim, eu tenho vários irmãos de alma por esse Brasil afora, a exceção do Acre. E considero-os um patrimônio inestimável. Arnoldo Vicente de Lima Barbosa era um paulista comum. Formou-se em Odontologia e decidiu abrir um consultório só para crianças. Imaginem. Tratar de dentes de adultos já é uma tarefa ingrata. Cuidado, dói aqui, dói ali, sem falar daqueles que acabam perdendo os dentes pelo horror que têm em sentar numa cadeira dentária. Arnoldo, no entanto, com extrema calma e elevada competência fez sucesso na profissão. Sucesso mesmo, na enorme concorrência da capital paulista com milhares de dentistas, ele entrou na batalha e, como dizem, viu e venceu. Não ficou milionário mas comprou fazenda em Campos, Campos para os paulistanos é Campos do Jordão, local onde os ricos se encontram em determinadas épocas. Eu lá estive com ele, minha esposa Rose Marie e Janete. Dias inesquecíveis. Vale a pena conhecer Campos. Arnoldo comprou ainda carros. Era sua paixão. Em sua residência, ampla, agradável e com piscina, a maior área era ocupada pelos seus automóveis que ele cuidava com o mesmo carinho com que cuidava dos dentes de seus clientes. Nós estivemos visitando-o pouco antes da sua despedida. A gente não sabia, foram dias magníficos com Janete preparando um programa de mesa e passeios surpreendentes. Eu costumo dizer até para ela que Janete é danadinha. E nós já a visitamos, uma visita não para confortá-la que isso está na intimidade e no coração das pessoas, mas para abraçá-la com afeto e recordar os melhores momentos vividos.
P.S. – As verdadeiras amizades são eternas. Cícero, famoso tribuno romano in “De Amic”.
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