O que foi que eu fiz? Sim, o que foi que eu fiz para merecer homenagem de qualquer natureza? Nunca mais fiz do que cumprir com aquilo que o dever me impunha, seja na vida familiar ou na profissional.

Nascido na pacata mas agradável Campo Largo, filho de emigrante árabe que deixou o Velho Mundo para “fazer a América no Novo Mundo” e que começou a trabalhar como mascate (mascate era o cidadão que comprava produtos na cidade para vender no interior) e que nessa missão chegou um dia a uma residência de italianos na Rondinha (C. Largo) e sua presença assustou minha mãe Margarida e minha tia Antônia que se esconderam daquele turco. Ignoro a razão pela qual costumamos chamar de turcos os sírios e libaneses que vieram para o Brasil. Curioso, pois turcos não têm o hábito de deixar seu país. Creio, aliás, que dificilmente se encontrará um turco no Brasil. No entanto…

Como quer que seja, com sangue árabe e italiano eu sonhava na juventude ser diplomata. Não pensando em bem representar o Brasil mas com enorme desejo de conhecer o mundo. O destino mudou o caminho mas manteve o desejo. Chegando em Curitiba, levou-me meu pai a almoçar numa churrascaria que existia na Praça Tiradentes e na saída vi que um cidadão deixara cair algo, apanhei e vi ser uma carteira de dinheiro, chamei o dono e lhe entreguei. Obrigado, disse-me, quem é o senhor? Sou de Campo Largo e vim fazer o ginásio. Então venha para o meu. Eu estava falando com o inesquecível professor Fernando Moreira, então diretor-proprietário do Ginásio Progresso que, ao tempo, ocupava toda a área da Praça 19 de Dezembro. Recordo que no primeiro ano nada paguei, já no segundo… Fiz um bom curso, tanto que fui aprovado em boa colocação no primeiro vestibular que fiz na gloriosa Universidade Federal do Paraná e acabei subindo aquela escadaria da Praça Santos Andrade por mais de 30 anos, cinco como aluno, os demais como professor. Detalhe curioso: fui aprovado com nota dez em tudo, menos em títulos. Indaguei por que. Porque o senhor não tem o curso de jornalismo. Retruquei, como poderia ter se no primeiro curso do Paraná eu já fui professor?…

Perdi-me mas volto ao agradecimento. Ideia alucinada do sábio presidente do Tribunal do Trabalho do Paraná, o desembargador Ney José de Freitas, movido certamente pelos longos laços de amizade que nos unem a não sei quantas décadas. Acompanhei sua carreira desde o ingresso na magistratura até alcançar meritoriamente a elevada presidência. E não tenho dúvida de que devo a essa nossa união fraterna e irmã, a homenagem que me surpreendeu. Homenagem em um belo livro, com prefácio do amigo e mestre René Ariel Dotti (Rosarita, gratíssimo por mais um Natal!), com homenagem do irmão paulistano Antonio Roque Citadini, o galã de Capão Bonito que conquistou São Paulo chegando à presidência do mais importante Tribunal de Contas do Brasil, depois do TCU, e a apresentação de José Ribamar Gaspar Ferreira a quem considero membro de nossa família com especial carinho. Mais que isso, o livro contém artigos clássicos dos mais eminentes juristas nacionais. Quase chorei ao sentir que estava sendo lembrado e homenageado por aqueles que tenho como ídolos nacionais. Nomes de escol das letras brasileiras. Assim como tenho ídolo internacional. Quem? Ele, François Marie Arouet, sim, o grande Voltaire. A propósito, nos ídolos nacionais citados senti a ausência de um, na verdade o maior de todos, o grande Rui. Creio dispensável dar o nome completo que na verdade era Rui Barbosa de Oliveira.

Por fim pergunto-me, que fiz para merecer a homenagem? Ter escrito nove livros e estar escrevendo o décimo? Mas quantos não fizeram mais e melhor? Certo, poucos entretanto tiveram um amigo tão especial como Ney José de Freitas. Que todos os céus o bendigam, irmão Ney!