A primeira reação foi de susto. Em seguida de revolta, indignação, decepção e quase desespero. Eu tinha certeza que fatos dessa estirpe só aconteciam no Brasil, da Bahia para cima, onde os costumes eram, até pouco tempo, mais livres, menos responsáveis.
Desta feita, contudo, a “bomba” explodiu aqui pertinho, em nosso proclamado Centro Cívico, ideia excelente do ex-governador Bento Munhoz da Rocha Neto que, embora merecidamente nas alturas, deve ter sofrido o impacto desse absurdo.

Que absurdo? Mais que absurdo, imoralidade, desfaçatez e, no fundo, corrupção velada.

Vamos raciocinar com a maior simplicidade. A informação é que a Assembleia vai exonerar 2 mil servidores. Bastaria para definir a questão: Cabem dois mil funcionários no prédio da Assembleia Legislativa? Sabemos todos que não. E creio que mesmo ocupando partes dos prédios vizinhos do Palácio do Governo e do Palácio da Justiça o espaço não seria suficiente. É evidente que nem precisaríamos denunciar que esse enorme batalhão era pago para não trabalhar. Qual a razão da facilidade para tal espécie de protecionismo? Primeiro que o Legislativo é poder independente. O que não é incorreto. Incorreto é abusar dessa independência para avançar afoita e gulosamente no dinheiro do povo. Sim, não se ignora que esses dois mil apadrinhados foram assalariados com dinheiro dos impostos que todos pagamos. Segundo, que os deputados dessa legislatura devem ter perdido o juízo com a vitória eleitoral e se imaginaram protegidos pelo céu. Terceiro, não há dúvida que confiaram na independência e na força do poder legislativo. Olvidaram, no entanto, dois relevantes fatores: a opinião pública e a imprensa. E se essas duas forças não esquecerem o escândalo, vai ser difícil suas excelências continuarem na vida política.

Com efeito, nós votamos nessa classe por necessidade de constituir um poder legislativo, provavelmente o mais forte tronco do tripé governamental: Executivo, Legislativo e Judiciário, como se almeja independentes e harmônicos entre si.

Quando esses fatos ocorriam em republiquetas nós nos surpreendíamos: Como é possível? Pois tanto era possível que, mais cedo do que esperávamos, chegou ao nosso jardim. Lastimável, doloroso, incrível, castigante, sofrível e todos os demais adjetivos congêneres.

Não podemos, todavia, mais fazer do que confiar que o povo está atento e saberá dar a resposta devida e apropriada quando for chamado às urnas novamente. Essa é, na realidade, a grande vantagem da democracia (até porque a ciência política não conseguiu ainda um melhor sistema). Os políticos são seres humanos, embora uma vez no cargo tenham o dever inarredável de não errar o passo, até porque o preço do passo errado pode significar o encerramento da carreira política.

P.S. – É difícil e árduo ser um homem político e ser um homem verdadeiramente moral. (Francis Bacon em “The Advancement of Learning”)