Entre as melhores coisas que a vida nos proporciona está a possibilidade de viajar. Tomar avião ou navio e deixar problemas em casa, conhecendo novos lugares, fazendo novas amizades e descobrindo aqui ou acolá algo de novo que se incorpora ao seu conhecimento. Há, no entanto, inevitáveis problemas. O que levar na viagem? Problema menos, maior problema é como trazer tudo de volta. Sabemos todos que viajamos para conhecer e para comprar. Às vezes mais para um ou para outro. Dependendo do lugar e do dólar ou euro.
Costumo ler com atenção jornalistas que viajam a exemplo de Roberto da Matta (Estadão) que escreveu de Houston: “Acabo de ser saudado por até logo simpático do oficial de fronteira do moderníssimo Aeroporto Internacional George Bush, em Houston, Texas, Estados Unidos, e, depois de andar até a esteira das malas, sou farejado por cachorros”. (Quando escrevo Texas recordo com alguma vaidade que ao visitá-lo fui honrado com o título de cidadão honorário da cidade de Carrolton). Os cachorros são limpos, continua Da Matta, como todo cão americano. Estão seguros por funcionários do Home Land Security, impecavelmente vestidos. Em toda parte eles cheiram as malas com olhos tristes de bichos amestrados e sua visão apagou o enorme cansaço de longo voo sem nenhuma novidade. Ao passar para o terminal doméstico ele se defronta com algo mais assustador, a máquina de raio X destinada a verificar se seu corpo não é uma máquina anti-humana. E diz ainda que começa a tirar os sapatos numa grande fila de gente silenciosa e desconfiada como bois de matadouro quando aquela cabine de vidro com portas que rolam sobre si mesmas põem a nu aquilo que estava encoberto por minhas meias, camisa, calça e cueca. É obrigado a entrar em tal biombo, descalço e com as calças caindo pois tiraram-lhe a cinta, sem carteira e relógio e com seu parco dinheirinho nas mãos esticadas sobre a cabeça. Ingressa na máquina que vai desnudá-lo além da conta dos olhos humanos. Sente então que chegou aos Estados Unidos e, então, se pergunta: Será que ainda vale a pena viajar?…

A viagem de Da Matta foi para participar de encontro para discutir o impacto da obra do prof. David Maybury-Lewis, antropólogo de Harvard, primeiro estudioso dos Xavantes no Brasil que faleceu em dezembro de 2007. Da Matta conta que foi seu primeiro orientando brasileiro.

Ainda assim vale a pena viajar!…

P.S. – Sinto-me mais feliz. Acabo de expor em meu escritório a medalha que coloquei em quadro do centenário de Rui Barbosa (meu ídolo) recebida do Ministério da Cultura pela Fundação Rui Barbosa.